A expansão da recarga residencial de carros elétricos expõe uma fragilidade antiga das instalações brasileiras: a ausência de aterramento, exigido pela NBR 5410, norma de instalações elétricas de baixa tensão. O fio terra é o caminho seguro para a corrente quando um equipamento de alta potência apresenta falha de isolação.
A recarga específica de veículos elétricos é regida pela ABNT NBR 17019, publicada em abril de 2022 e aplicada em complemento à NBR 5410. A norma trata o carregador como um Sistema de Alimentação para Veículo Elétrico (SAVE) e determina que cada ponto de conexão em corrente alternada tenha proteção individual por dispositivo diferencial residual (DR) com sensibilidade de até 30 mA. O DR tipo AC não é permitido. A proteção pode vir embutida no equipamento de recarga, caso em que se admite o tipo A, ou ser fornecida pela instalação, por meio de DR tipo B.
Por que o carro elétrico exige mais da instalação
Diferentemente de um eletrodoméstico, o veículo fica conectado à rede por horas seguidas, em carga alta e contínua. Seja em tomada com carregador portátil, seja em carregador de parede (wallbox), que opera com correntes de até 32 A, a instalação trabalha perto do limite por muito mais tempo do que em qualquer outro uso doméstico. Por isso, o wallbox exige circuito próprio e proteção adequada.
Como o aterramento protege?
Em uma falha de isolação, parte da corrente deixa de percorrer o circuito normal e passa para a carcaça metálica do equipamento ou do veículo. Com o fio terra, esse desvio escoa para a terra por um caminho de baixa resistência. A corrente de fuga é então detectada pelo DR, que compara a corrente de ida e de volta no circuito e o desliga ao perceber diferença, fazendo o disjuntor atuar em caso de sobrecorrente. Sem o condutor de proteção, a carcaça pode ficar energizada e a fuga só encontra um caminho quando alguém a toca, situação em que o choque já ocorreu.
“Atualmente, a recarga de um carro elétrico é, em termos de instalação, uma das cargas mais exigentes que uma casa está recebendo. Se o aterramento está ausente ou deteriorado, as proteções que deveriam atuar no caso de fugas de corrente podem simplesmente não funcionar”, afirma Fellipe Ramon Teixeira do Couto, supervisor de ensino e engenheiro eletricista da Loja Elétrica.
O que checar antes de instalar o carregador
Os materiais de aterramento e sistemas de proteção contra descargas atmosféricas (SPDA) pedem avaliação. Os pontos centrais são:
- Existência e continuidade do fio terra até o quadro de distribuição e as tomadas;
- Estado da haste e das conexões do aterramento, que se degradam com o tempo, sobretudo em imóveis antigos;
- Circuito exclusivo para o carregador, com disjuntor próprio, em vez de dividir a linha com outros equipamentos;
- Proteção por DR e por dispositivo de proteção contra surtos (DPS), que também depende do aterramento para funcionar.
“Instalações elétricas antigas, especialmente aquelas que possuem tomadas de dois pinos e não dispõem do condutor de proteção, não combinam com um carregador novo. Antes de investir com o novo equipamento, é fundamental realizar uma avaliação técnica da instalação, porque assim o profissional garante se a recarga será segura”, explica Couto.
Sinais de alerta
Choques ao encostar em eletrodomésticos, tomadas sem o terceiro pino, uso de adaptadores para plugues de três pinos e falhas recorrentes em equipamentos podem indicar aterramento ausente ou comprometido. Os sinais merecem atenção independentemente de haver um carro elétrico na garagem, mas passam a ser prioridade para quem pretende instalar recarga em casa.
“Quem está avaliando para comprar um carro elétrico deveria incluir a verificação do aterramento no mesmo orçamento do veículo. É um custo pequeno perto do risco que ele evita”, orienta Couto.
Vale instalar aterramento só por causa da recarga? Quanto custa?
Para quem já tem carro elétrico ou pretende comprar um, a conta tende a favorecer o aterramento por dois motivos. O primeiro é que ele não serve só ao carregador: a NBR 17019 se apoia na NBR 5410 e exige proteção por DR em cada ponto de recarga, e essa proteção depende de um condutor de proteção funcional. O segundo é que o custo do item em si é baixo diante do investimento no veículo e no equipamento.
Como referência, a tabela Sinapi (Caixa e IBGE), na edição de maio de 2026, estima em R$ 131,33 o fornecimento e a instalação de uma haste de aterramento de 3 metros. A tabela Orse, de Sergipe, calcula R$ 127,15 para uma haste de cobre de 2,40 metros interligada por cabo de cobre. São valores de referência para obras, e não orçamento residencial.
Em imóveis antigos, com tomadas de dois pinos e sem condutor de proteção, a adequação envolve fiação e quadro, e o custo varia conforme o tamanho e o estado da instalação.
Por que se rouba tanto fio e peça de cobre?
A explicação está no mercado. O cobre conduz bem a eletricidade, tem demanda global e é fácil de revender. Segundo a Bolsa de Metais de Londres, o preço do metal subiu 108% em cinco anos até março de 2025. A fabricante Sil estima alta superior a 30% entre 2025 e o início de 2026.
No mercado clandestino, o quilo do cobre puro pode chegar a R$ 43, e os fios mistos variam de R$ 25 a R$ 38. A cadeia costuma começar com o furto de cabos em postes, obras e prédios públicos. Os criminosos queimam a capa plástica para extrair o metal, que depois é vendido a ferros-velhos e recicladoras.
O problema é nacional. A Enel São Paulo registrou mais de 4.400 ocorrências de furto de cabos no primeiro semestre de 2026, alta de cerca de 8%, e o número de clientes afetados subiu 40%. Em 2025, uma lei federal (15.181/2025) endureceu as penas para furto, roubo e receptação de fios e cabos.
