Cientistas da Universidade de São Paulo descobriram que a chave para degradar o bagaço da cana está na própria planta, conforme estudo divulgado em outubro de 2026. A equipe do Laboratório de Fisiologia Ecológica de Plantas mapeou o desenvolvimento de estruturas porosas nas raízes e isolou uma molécula vegetal capaz de multiplicar por seis a liberação de açúcar dos resíduos agrícolas, um avanço crucial para o etanol de segunda geração.
Atualmente, o aproveitamento pleno dessa biomassa esbarra na rigidez da lignocelulose, material que forma o esqueleto vegetal. Por causa dessa dificuldade, uma empresa dinamarquesa detém o monopólio de coquetéis enzimáticos baseados em fungos. Contudo, os pesquisadores brasileiros dedicaram 17 anos de estudos para buscar alternativas nacionais mais eficientes.
Mapeamento genético e a descoberta da enzima ASD
O grupo analisou o processo natural de formação dos aerênquimas, estruturas que criam túneis de ar nas raízes da planta. Durante essa remodelação celular, a espécie vegetal quebra suas próprias paredes internas. Os cientistas identificaram mais de 32 mil genes ativos e focaram nas enzimas que atuam como tesouras químicas.
Dessa forma, a equipe encontrou a enzima alfa-L-arabinofuranosidase, conhecida como ASD. Em seguida, os pesquisadores produziram essa molécula em laboratório com o uso de leveduras para testar sua eficácia prática. A inserção da ASD em coquetéis comerciais elevou significativamente a conversão da biomassa em açúcares fermentáveis.
Perspectivas para a transição energética e novos coquetéis
O professor Marcos Silveira Buckeridge coordenou o projeto financiado por agências públicas e destacou a importância de investimentos de longo prazo. Segundo o pesquisador, o estudo revela um cardápio molecular imenso com centenas de sequências genéticas na cana. A equipe já identificou uma segunda classe enzimática focada na quebra de pectinas, substâncias que unem as células vegetais.
Portanto, esses resultados abrem caminho para a criação de coquetéis cem por cento vegetais e customizados. O setor sucroenergético ganha competitividade na produção de combustíveis limpos e reforça o papel do Brasil nas rotas tecnológicas globais de descarbonização.
*O artigo Aerenchyma in sugarcane roots: a toolbox for tailoring biomass for bioenergy pode ser lido em: academic.oup.com/jxb/advance-article-abstract/doi/10.1093/jxb/erag174/8658895
