Caminhão da JBS roda de Santos a Lins com biodiesel 100% puro

Quando o assunto é a descarbonização do transporte pesado, o grande obstáculo costuma ser o custo de substituição de frotas ou a necessidade de infraestruturas complexas. No entanto, um projeto pioneiro no Brasil acaba de mostrar que a solução pode estar no tanque dos caminhões atuais.

A JBS alcançou um marco histórico na logística nacional: um de seus caminhões pesados ultrapassou a marca de 500 mil quilômetros rodados utilizando exclusivamente biodiesel 100% (B100). O feito mais impressionante da operação, que já dura três anos, é que o veículo operou com motor e componentes originais de fábrica, sem necessitar de nenhuma adaptação mecânica.

Na prática, o caminhão realiza diariamente a rota entre Lins, no interior paulista, e o Porto de Santos. Tracionando uma carreta-container carregada com alimentos congelados e resfriados da Friboi, o veículo enfrenta diariamente o rigoroso sobe e desce da serra. Segundo a equipe técnica, o desempenho mecânico se manteve estável e sem aumento de consumo em relação ao diesel fóssil.

Economia circular dentro de casa

O sucesso da empreitada é o resultado de uma forte integração interna no grupo JBS. Enquanto a TRS responde pela operação logística, o combustível B100 é fornecido pela Biopower, empresa da própria companhia e uma das maiores produtoras de biodiesel do Brasil.

A matéria-prima do combustível revela a força da economia circular do projeto: o B100 é produzido a partir do aproveitamento integral de recursos, utilizando resíduos do processamento bovino (como o sebo) e óleo de cozinha descartado.

“Não notamos nenhuma dificuldade na movimentação da frota em nenhuma das fases do teste. Constatamos desempenho satisfatório do caminhão, sem registros de aumento no consumo ou de falhas corretivas”, avalia Márcio Salaber, diretor da TRS, que gerencia uma frota de 1,6 mil veículos focada não apenas em contêineres, mas também na plataforma de carga viva Uboi.

O primeiro “bioponto” do país

Para viabilizar a escala do projeto, a JBS instalou em seu complexo de Lins (SP) o primeiro ponto de abastecimento exclusivo de B100 do país homologado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O “bioponto” conta com duas bombas e capacidade para armazenar até 46 mil litros do combustível renovável.

A estrutura é parte de uma estratégia maior. A companhia anunciou, no fim de 2025, um investimento de R$ 140 milhões na modernização tecnológica de suas três usinas da Biopower (SP, MT e SC), posicionando-se estrategicamente na transição energética brasileira.

Impacto ambiental que equivale a uma frota de carros

A adoção do B100 entrega resultados expressivos para o meio ambiente. Desde o início do projeto piloto, em 2023, toda a frota envolvida nos testes já acumula mais de 1,1 milhão de quilômetros rodados.

Utilizando a metodologia do GHG Protocol Brasil (FGV), a troca do diesel fóssil pelo B100 proporciona uma redução vertiginosa de até 99% nas emissões de CO2. Até o momento, a operação já evitou o lançamento de cerca de 1 mil toneladas de CO2 equivalente na atmosfera. O volume é comparável à retirada de 232 automóveis de passeio das ruas durante um ano inteiro.

Para Alexandre Pereira, diretor comercial da Biopower, os números provam o potencial imediato do biodiesel. “Produzimos o combustível a partir de matérias-primas da própria cadeia e o utilizamos em uma operação real. Os resultados mostram como o B100 conecta economia circular e desfossilização da logística”, conclui.

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