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Avaliação: Jeep Renegade Sahara MHEV e o design ‘boxy’

Avaliação: Jeep Renegade Sahara MHEV e o design ‘boxy’

A Stellantis avança na eletrificação gradual de seu portfólio no Brasil, e o Jeep Renegade Sahara MHEV marca esse novo momento. O Electric News avaliou o modelo por uma semana. A data calhou com a mesma em que o utilitário celebrava uma década de Brasil e a marca de 600 mil unidades vendidas.

A longevidade do modelo levanta uma questão:

Por que o SUV continua atraindo tantos compradores, mesmo sem um porta-malas avantajado ou uma revolução visual profunda? A resposta passa pela identidade marcante herdada da linhagem Jeep, pela diversidade de versões e, agora, pela chegada do trem de força eletrificado.

Eletrificação leve: como anda o Renegade Sahara MHEV

A novidade mecânica está no sistema micro-híbrido (MHEV) de 48V, composto por uma máquina elétrica de 11,4 kW (15,5 cv) e 65 Nm associada a uma bateria auxiliar de íon-lítio de 19,5 Ah. Integrado ao motor 1.3 turboflex de 4 cilindros em linha, o motor elétrico auxilia nas arrancadas e retomadas, aliviando o propulsor a combustão para reduzir emissões e consumo urbano sem subtrair fôlego.

O propulsor a combustão entrega 176 cv a 5.750 rpm e 27,5 kgfm de torque a 2.000 rpm, tanto com gasolina quanto com etanol. Apesar dos 1.531 kg em ordem de marcha, o conjunto acelera de 0 a 100 km/h em 8,9 segundos e alcança 206 km/h de velocidade máxima declarada.

No padrão PBEV, os dados de consumo são:

  • Ciclo urbano: 11,9 km/l (gasolina) / 8,3 km/l (etanol)

  • Ciclo rodoviário: 11,8 km/l (gasolina) / 8,6 km/l (etanol)

Em nosso teste prático, com medição tanque a tanque exclusivamente em circuito urbano, o modelo registrou média de 10 km/l com gasolina. Com um tanque de 55 litros, a autonomia em ambiente urbano supera os 650 km com combustível fóssil.

Na cabine, a tecnologia embarcada inclui o painel multimídia com tela de 10,1 polegadas e o quadro de instrumentos digital configurável de 7 polegadas. No quesito dimensões, o Renegade mantém proporções compactas: 4.270 mm de comprimento, 1.805 mm de largura, 1.706 mm de altura e 2.566 mm de entre-eixos. O porta-malas comporta 385 litros com cinco ocupantes (ampliando para 1.448 litros com o banco traseiro rebatido), e a capacidade de carga útil é de 400 kg.

Quadrado mais do que perfeito para quem busca praticidade no dia a dia

O segredo do formato boxy

Poucos apostariam, há mais de uma década, que um traço retilíneo faria tanto sucesso no segmento de compactos urbanos. O termo técnico para essa silhueta é boxy, formato caracterizado por linhas retas, carroceria quadrada, teto plano, para-brisa verticalizado e postura musculosa. Longe de ser um anacronismo, essa linguagem voltou ao centro das atenções da indústria e ganha força entre os utilitários mais recentes.

Para quem aprecia o desenho anguloso do Renegade e rejeita os crossovers de perfil ovalado, outros modelos no mercado exploram a mesma proposta visual:

  1. Ford Bronco Sport: Faróis retangulares, capô elevado e para-lamas alargados. Uma alternativa que preserva a robustez geométrica em porte superior.

  2. Jetour T2: Uma das representações mais fiéis do estilo entre os modelos recentes, com frente alta, laterais retas e tampa traseira quase perpendicular ao solo.

  3. GWM Tank 300: Desenho utilitário clássico, com faróis redondos sobre capô plano e para-lamas pronunciados, fundindo a linguagem rústica com acabamento moderno.

  4. Land Rover Defender: O grande expoente contemporâneo das superfícies planas, teto reto e perfil vertical, combinando apelo funcional a um padrão de luxo superior.

  5. GWM Haval H9: SUV grande de arquitetura tradicional sobre chassi, linhas sóbrias e proporções volumosas com foco familiar.

  6. Mercedes-Benz Classe G: A expressão máxima da estética militar transformada em luxo, praticamente inalterada em sua essência geométrica por décadas.

 

Teto solar que lembra o do Fiat Stilo, inteiro. Oferece iluminação e calor quando se deixa o carro estacionado

A inspiração histórica do Renegade

A estética do Renegade não partiu de um concorrente contemporâneo, mas da herança interna da própria Jeep. Os designers buscaram referências diretas no Willys MB (1941) e no Wrangler: a grade frontal com sete fendas, os faróis redondos, o para-brisa ereto e até as lanternas traseiras com o clássico relevo em “X”, inspirado nos galões auxiliares de combustível dos veículos militares.

O próprio Jeep Cherokee XJ (1984) consolidou essa arquitetura ao provar que a carroceria quadrada e funcional podia servir perfeitamente à rotina urbana e familiar sem perder a vocação off-road.

Uma breve linha do tempo do design automotivo

O formato retilíneo do Renegade faz parte de um diálogo contínuo na história do automóvel:

  • Anos 1920 a 1930 (A era da gota e aerodinâmica): Modelos pioneiros como Rumpler Tropfenwagen e Chrysler Airflow buscaram romper com o formato de carruagem, introduzindo cabines em arco contínuo e traseiras afiladas para minimizar o arrasto do vento.

  • Anos 1940 a 1950 (A funcionalidade utilitária): Willys MB, os primeiros Jeep CJ e o Land Rover Defender estabeleceram a primazia das linhas retas e painéis planos por pura facilidade de estampagem, aproveitamento de espaço e reparos de campo.

  • Anos 1950 a 1960 (A exuberância espacial): Nos Estados Unidos, Cadillac Eldorado e Chevrolet Bel Air abusavam de cromados, aletas pronunciadas e para-brisas panorâmicos, celebrando potência e ostentação.

  • Anos 1960 a 1970 (Escolas europeias): Enquanto os franceses (Citroën DS e CX) apostavam em superfícies orgânicas e fluidas, a escola italiana, liderada por Giorgetto Giugiaro, revolucionava com o conceito origami. O Volkswagen Golf Mk1 (1974) provou que colunas largas, painéis planos e balanços curtos entregavam solidez visual imbatível — algo sentido no Brasil com Fiat 147, VW Gol e Lada Niva.

  • Anos 1980 a 1990 (A precisão esportiva japonesa): Carros como Honda NSX, Toyota Supra e Nissan 300ZX combinavam perfis baixos, faróis escamoteáveis e superfícies técnicas altamente calculadas.

  • Anos 1990 (A volta das formas ovais): A virada do milênio adotou curvas fluidas e o conceito New Edge (Ford Taurus e Ka), impulsionado pelos primeiros softwares de modelagem digital em busca de eficiência energética e redução de arestas.

Por que o quadrado ainda seduz?

O Jeep Renegade permanece relevante porque desafia a padronização aerodinâmica. Ele recupera a função visual dos utilitários clássicos e a geometria simples dos hatches históricos, integrando-as a recursos contemporâneos de segurança, tecnologia e conectividade.

O mercado automotivo atual mostra que as soluções visuais coexistem: enquanto sedãs e elétricos refinam o formato de gota em busca de cada quilômetro de autonomia, os SUVs reafirmam sua força visual na solidez dos ângulos retos.

Conclusão:

Se você procura por um modelo consolidado, mas que traz tecnologia, o Renegade MHEV é uma boa saída. Agora, se você prefere se aventurar com os chineses, talvez até encontre oportunidades, mas nenhuma perto de assegurar a venda de 600 mil unidades. Vale relevar se você quer praticidade e facilidade no dia a dia. O Renegade só peca em ter uma baixa capacidade de carga e um parco porta-malas. Para uma família de cinco pesos-pesados, talvez seja complicado. Já para uma família de três ou casal, sem problemas. Vale aferir os supostos R$ 176 mil que serão investidos.

Rodrigo Samy

Rodrigo Samy

Jornalista e assessor de imprensa com 25+ anos de experiência. Passagens por Estadão, WebMotors, Yamaha e Mitsubishi, além de atendimento a marcas como Jeep, Goodyear e SulAmérica. Fundador do Electric News, portal focado em mobilidade elétrica e transição energética.

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