O avanço dos carros elétricos e híbridos no Brasil está impondo uma nova realidade ao setor de serviços automotivos, especialmente ao de lava-jato e lavagem de veículos. Segundo especialistas, a evolução tecnológica dos automóveis exige não apenas mudanças operacionais, mas também maior preparo técnico e infraestrutura adequada nos postos de combustíveis.
De acordo com Márcia Santos, da Aliare Consultoria, o setor ainda não está plenamente preparado para lidar com as exigências desses novos veículos, que incorporam sistemas avançados de proteção e automação. “Estamos entrando em uma nova era da mobilidade. Os veículos elétricos e híbridos não podem ser tratados como os carros convencionais. Eles possuem tecnologias embarcadas que exigem protocolos específicos de lavagem e segurança. Quem não se adaptar a isso vai ficar para trás”, afirma.
Como a tecnologia embarcada muda a lavagem
Um dos exemplos mais simbólicos dessa transformação está nos sistemas automatizados de veículos, como os da Tesla, que utilizam o chamado Car Wash Mode. Ao ativar a função, o carro fecha janelas, porta-malas e a entrada de recarga, desliga os limpadores automáticos, desativa alarmes de estacionamento e o modo sentinela, além de colocar o veículo em ponto morto para que deslize sem interferência do sistema de tração pelas esteiras de lavagem automática. O procedimento pode ser ativado com um único comando no painel, no caminho Controls, Service, Car Wash Mode. Em versões mais recentes do software, o sistema chega a emitir um alerta caso algum vidro permaneça aberto durante a passagem pela lavagem.
Para Márcia, esse tipo de tecnologia redefine completamente o padrão de operação das lavagens automotivas. “Não estamos falando apenas de eficiência ou velocidade. Estamos falando de segurança tecnológica. A lavagem precisa conversar com o carro, literalmente”, destaca.
Crescimento acelerado dos carros elétricos
Além da complexidade tecnológica, o setor enfrenta o desafio de se adaptar em escala. O crescimento das vendas de elétricos no país, puxado por marcas como BYD e GWM, aponta para uma demanda crescente por serviços especializados nos próximos anos.
A BYD vendeu 112.915 veículos elétricos e híbridos no Brasil em 2025, o equivalente a 50,4% de todo o mercado nacional de eletrificados, um salto de quase 50% em relação às 76 mil unidades comercializadas em 2024. Somente no primeiro trimestre de 2026, a montadora chinesa vendeu 37.637 veículos no país, alta de 73,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Esse ritmo de expansão já reverbera na infraestrutura ao redor do carro. O Brasil comprou 181.542 veículos elétricos e híbridos plug-in em 2025, alta de 44,5% sobre 2024, e o número de eletropostos no país cresceu 42% em doze meses, ultrapassando 21 mil pontos de recarga. O movimento reforça a avaliação de Márcia sobre a urgência de adaptação.
“Tecnologia se lava com tecnologia. Não existe mais espaço para processos manuais lentos e desconectados da realidade dos veículos atuais. O setor precisa evoluir na mesma velocidade da indústria automotiva”, reforça.
Lava-jato deixa de ser serviço secundário
Outro ponto destacado pela especialista é a mudança de mentalidade operacional nos postos de combustíveis. Para ela, a lavagem automotiva deixou de ser um serviço acessório e passou a integrar uma nova lógica de eficiência e experiência do consumidor, em um momento em que postos já ampliam a oferta de serviços como farmácias, conveniências, lavanderias, troca de óleo e recarga elétrica para se manterem competitivos diante da eletrificação da frota.
“Hoje não cabe mais um serviço que demora 40 minutos ou uma hora. A vida nas grandes cidades exige agilidade. Em sistemas automatizados, conseguimos reduzir o tempo médio de lavagem para cerca de seis minutos, com padronização, segurança e controle operacional”, explica Márcia.
Para a especialista, o setor vive um ponto de virada. A combinação entre eletrificação da frota, automação e novas expectativas do consumidor cria um cenário em que a adaptação não é opcional. “Quem não estiver preparado para essa nova demanda vai ficar para trás. Estamos falando de uma transformação estrutural do mercado de serviços automotivos”, conclui.
De cada 100 carros vendidos no Brasil, 16 já são eletrificados




