Parecia que esse momento ainda demoraria para chegar, mas os carros elétricos já começaram a ocupar espaço no mercado de seminovos e usados no Brasil. Com o avanço das vendas de veículos eletrificados nos últimos anos, especialmente impulsionado por locadoras, empresas de mobilidade e frotistas, modelos de segunda mão passaram a disputar espaço diretamente com os zero quilômetro. Entre os elétricos mais presentes nas revendas estão o BYD Dolphin, GWM Ora 03, Volvo EX30 e até unidades do Tesla Model 3.
Grande parte desses veículos chega ao mercado secundário por meio da renovação de frotas corporativas e locadoras, além de carros provenientes de seguradoras, após sinistros, e veículos recuperados por bancos em operações de financiamento. O movimento também começa a impulsionar os leilões especializados em veículos eletrificados, consolidando um fenômeno considerado natural dentro da maturação do mercado automotivo.
Estado de funcionamento da bateria é o que importa
Especialistas avaliam que todo veículo vendido em grande volume inevitavelmente entra no ciclo de revenda, seminovos e leilões. Nos elétricos, porém, o processo ainda é acompanhado de dúvidas maiores por parte dos consumidores. Entre as principais preocupações estão o estado da bateria, os custos de reparo, a disponibilidade de peças, a existência de mão de obra especializada, a desvalorização acelerada e o histórico de recarga e utilização do automóvel.
Por isso, a recomendação do setor é que compradores tenham atenção redobrada antes de adquirir um elétrico usado, especialmente em leilões. O principal ponto de análise continua sendo a bateria de alta tensão, considerada o componente mais caro do veículo. Dependendo do modelo e do tipo de dano, a substituição pode representar um custo elevado.
Outro fator que influencia diretamente o mercado é o comportamento das seguradoras. Muitos veículos elétricos acabam classificados com perda elevada mesmo após colisões moderadas, já que os protocolos de segurança envolvendo sistemas de alta voltagem são mais rigorosos. Em alguns casos, pequenas avarias estruturais próximas ao conjunto de baterias já aumentam significativamente o custo do reparo.
Índice de classificação das avarias acaba influenciando
Ao mesmo tempo, a expansão desse mercado cria novas oportunidades para oficinas especializadas, recicladoras de baterias, desmontes legalizados e revendedores independentes. A expectativa é de crescimento gradual dos leilões de elétricos nos próximos anos, principalmente conforme locadoras e empresas renovem suas frotas eletrificadas.
No exterior, especialmente na China, Estados Unidos e em países da União Europeia, os leilões de elétricos já movimentam grandes volumes e influenciam diretamente o mercado de usados. No Brasil, o setor ainda está em fase inicial, mas já deixou de ser exceção.
Uma das empresas que passaram a investir nesse segmento é a Copart, multinacional norte-americana presente em 11 países e atuando no Brasil desde 2012. A empresa iniciou pregões específicos para veículos eletrificados diante do aumento da demanda no mercado secundário.
Segundo Adiel Avelar, CEO da companhia no Brasil, o interesse por elétricos usados e salvados vem crescendo de forma consistente. “Existe uma alta receptividade do mercado secundário. A demanda por elétricos usados ou salvados cresceu consideravelmente, o que garante muita liquidez e torna a venda desses lotes bastante dinâmica e atrativa nos nossos leilões”, afirma.
De acordo com o executivo, a criação de leilões específicos para elétricos surgiu a partir da expansão da frota eletrificada no país e do aumento do volume desses veículos chegando aos pátios da empresa. A estratégia também busca facilitar a busca de compradores interessados em novas tecnologias e organizar melhor o inventário disponível.

O público-alvo dos leilões abrange tanto pessoas jurídicas quanto físicas. De um lado, estão lojistas, revendedores, oficinas especializadas e empresas de desmonte autorizadas, que buscam principalmente peças de reposição.
De outro, há consumidores finais e entusiastas interessados na oportunidade de adquirir um veículo eletrificado por um valor mais atrativo.
A procedência dos veículos segue dinâmica semelhante à dos automóveis convencionais. Os lotes podem vir de seguradoras, em casos de perda total ou sinistros; de instituições financeiras, por busca e apreensão; além de empresas e pessoas físicas que optam por comercializar os veículos por meio da plataforma.
No caso da análise técnica dos carros elétricos, a Copart informa que adota o mesmo padrão de transparência utilizado nos veículos a combustão. A empresa não emite laudos detalhados sobre a saúde das baterias, mas realiza testes práticos, como a verificação de status “Liga e Engrena”, quando aplicável.
Segundo a empresa, os veículos são vendidos no estado em que se encontram, sem garantia sobre o percentual de eficiência das baterias. Para auxiliar os compradores, a companhia recomenda visitas presenciais aos pátios antes dos leilões. Além disso, quando o veículo consegue ser ligado, fotos do painel de instrumentos são disponibilizadas na plataforma, permitindo visualizar autonomia restante e possíveis alertas do sistema.
Classificados online também ofertam elétricos
O avanço do mercado de usados também começa a evidenciar um processo de desvalorização acelerada em alguns modelos elétricos. Levantamentos publicados pela OLX e pela Webmotors mostram que a diferença entre os preços de veículos novos e usados cresceu ao longo de 2024, acompanhando o aumento da oferta de eletrificados no Brasil.
Dados da OLX indicaram que alguns modelos chegaram a apresentar desvalorização de até 55% em relação à Tabela Fipe. Um dos exemplos foi o Renault Zoe, anunciado em média por cerca de R$ 97 mil, enquanto a referência da Fipe girava em torno de R$ 215 mil. Já o JAC E-JS1 apresentou diferença aproximada de 21% entre os valores praticados.
Na Webmotors, modelos como o BYD Dolphin e o GWM Ora 03 passaram a aparecer frequentemente abaixo dos preços da Tabela Fipe. O movimento é reflexo da forte concorrência entre montadoras chinesas e das sucessivas reduções de preços dos veículos zero quilômetro. O cenário consolidou uma dinâmica diferente da observada nos carros a combustão, já que a rápida evolução tecnológica e a política agressiva de preços das fabricantes passaram a impactar diretamente o valor de revenda dos elétricos usados.





