A forte instabilidade climática registrada nos últimos dias, caracterizada pela alternância entre manhãs frias e tardes de calor intenso, aumentou a demanda por energia e acendeu o alerta para a segurança das instalações elétricas residenciais. O uso simultâneo de equipamentos de aquecimento no início do dia e de sistemas de refrigeração no período da tarde expõe o envelhecimento dos componentes internos e o subdimensionamento das redes domésticas.
De acordo com a professora Michele Rodrigues, do curso de Engenharia Elétrica do Centro Universitário da FEI, a mudança de temperatura não agride os cabos de forma direta. No entanto, a oscilação térmica altera drasticamente o perfil de carga dos imóveis. Equipamentos como chuveiros elétricos e aquecedores demandam correntes elevadas. Esse fluxo gera calor na fiação por meio do Efeito Joule, processo no qual a corrente elétrica se transforma em energia térmica.
Em instalações antigas ou que receberam novos aparelhos ao longo dos anos sem reavaliação técnica, a temperatura ambiente elevada dificulta a dissipação desse calor interno. Consequentemente, o processo acelera o desgaste das conexões em bornes e tomadas, o que eleva o risco de curtos-circuitos em horários de pico.
Inércia térmica e sinais silenciosos de sobrecarga
O impacto das altas temperaturas também afeta diretamente a eficiência energética dos sistemas de climatização. Durante as tardes quentes, o ar-condicionado precisa retirar o calor armazenado nas paredes, no teto e nos móveis da edificação. Esse fenômeno, conhecido como inércia térmica, força o compressor a operar em capacidade máxima por mais tempo.
Além disso, o calor externo severo dificulta a rejeição de calor pela unidade condensadora do aparelho. Mesmo os modelos equipados com tecnologia inverter sofrem perda de rendimento nessas condições extremas. A elevação no esforço mecânico e elétrico do equipamento resulta em um aumento imediato no consumo medido em quilowatt-hora (kWh).
As redes elétricas emitem sinais operacionais antes de falhas graves ou desligamentos automáticos. Quedas na intensidade da iluminação ao ligar aparelhos de alta potência, tomadas aquecidas, plugues deformados e cheiro de queimado indicam conexões frouxas ou queda de tensão.
A especialista ressalta que a substituição do disjuntor por um modelo de maior corrente, sem o devido redimensionamento dos cabos, elimina a proteção do sistema e pode derreter a fiação. A realização de vistorias técnicas com ferramentas de termografia permite identificar esses pontos quentes e corrigir as falhas antes que ocorram acidentes.
