Durante boa parte do século XX, o petróleo foi o principal ativo estratégico da economia mundial. Hoje, porém, a disputa entre as grandes potências passa por outro grupo: o dos minerais críticos. Lítio, terras raras, grafite, cobre, níquel, cobalto e nióbio deixaram de ser apenas commodities para se tornarem peças centrais da segurança econômica.
Presentes em baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, data centers, semicondutores, equipamentos hospitalares, robôs industriais, satélites, sistemas de defesa e inteligência artificial, esses insumos passaram a ocupar posição estratégica nas políticas industriais de Estados Unidos, União Europeia, China, Japão e Coreia do Sul.
O boom global dos minerais críticos e o alerta da IEA
O relatório Global Critical Minerals Outlook, da Agência Internacional de Energia (IEA), projeta que a demanda global por minerais críticos dobrará até 2040. O lítio deverá apresentar o maior crescimento, com uma procura superior a três vezes os níveis atuais.
Em paralelo, grafite, níquel e terras raras também registrarão expansão significativa, impulsionados principalmente pela transição energética, armazenamento de energia, redes elétricas e fontes renováveis.
No entanto, a concentração geográfica da cadeia produtiva gera vulnerabilidades. Hoje, a China mantém posição dominante no processamento desses insumos, controlando entre 70% e 95% do refino mundial.
Em julho, a IEA alertou que restrições chinesas às exportações poderiam colocar em risco cerca de US$ 6,5 trilhões em produção industrial. Com isso, afetando diretamente os setores automotivo, tecnológico, energético e de defesa.
A América do Sul e o Triângulo do Lítio no tabuleiro geopolítico
É nesse cenário de vulnerabilidade externa que a América do Sul volta ao centro das atenções globais. A região reúne algumas das maiores reservas mundiais de minérios essenciais para a economia de baixo carbono.
O chamado Triângulo do Lítio, formado por Argentina, Bolívia e Chile, concentra uma parcela expressiva das reservas globais do metal. O Brasil, por sua vez, destaca-se com importantes jazidas de grafite, nióbio e terras raras, além de ter potencial para ampliar sua participação em toda a cadeia de valor.
Dados da IEA apontam que a América Latina responde por cerca de 25% da produção mundial de lítio, patamar que deve crescer quase 50% até o fim da década, além de forte relevância em cobre, estanho, zinco, nióbio e terras raras.
Para Rodrigo Bueno Prestes, advogado especializado em Direito Internacional Econômico e pesquisador das relações entre Mercosul e União Europeia, o debate superou a pauta mineral: “A corrida por minerais críticos representa uma mudança estrutural na economia internacional. Não estamos falando apenas de recursos naturais, mas de tecnologia, política industrial, segurança energética e capacidade de inovação. Quem controlar essas cadeias produtivas terá uma vantagem competitiva significativa nas próximas décadas.”
Segundo o especialista, essa transformação ressignifica o papel do Mercosul. Acordos comerciais históricos, como o tratado com a União Europeia, deixam de girar apenas em torno da redução de tarifas para se tornarem ferramentas fundamentais de segurança econômica e diversificação de fornecedores.
Parceria estratégica: a busca da Europa por novos fornecedores
Em junho deste ano, representantes da União Europeia visitaram projetos brasileiros de terras raras em busca de uma parceria que vá além da simples exportação de matéria-prima, priorizando a agregação de valor local.
Para o advogado Rodrigo Bueno Prestes, o movimento reflete uma mudança de postura do bloco europeu: “A União Europeia não procura apenas fornecedores. Procura parceiros estratégicos capazes de oferecer estabilidade institucional, previsibilidade jurídica e capacidade de desenvolver cadeias produtivas mais resilientes.”
Com isso, o Mercosul deixa de atuar estritamente como mero mercado consumidor ou exportador de insumos brutos, assumindo um papel relevante na reorganização das cadeias globais de suprimentos.
O grande desafio: transformar mineração em industrialização
Ter reservas expressivas, contudo, não garante, por si só, protagonismo geopolítico. A IEA alerta para um dos maiores gargalos da indústria contemporânea: a desconexão entre a capacidade de extração e a capacidade de refino.
Enquanto novos projetos de mineração brotam em várias partes do globo, o refino continua concentrado na Ásia. Como consequência, a maior fatia do valor agregado financeiro e tecnológico permanece fora dos países produtores.
Para Rodolfo Midea, da Fácil Negócio Importação, a estratégia econômica nacional precisa evoluir: “O verdadeiro valor econômico está na transformação desses minerais em produtos de alta tecnologia. Não basta exportar minério. É preciso desenvolver capacidade industrial para fabricar componentes estratégicos.”
Um exemplo claro desse gargalo são os ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB). Embora desconhecidos do grande público, eles são indispensáveis para o funcionamento de motores de carros elétricos, turbinas eólicas, robôs industriais, equipamentos médicos, drones e dispositivos de automação.
Midea reforça que a eletrificação da economia global depende diretamente desses pequenos componentes: “Quanto maior a eletrificação, maior a necessidade de motores de alta eficiência e, por conseguinte, de ímãs permanentes de terras raras.”
Oportunidade histórica para o Brasil e o Mercosul
Na avaliação de especialistas, o Brasil acumula vantagens comparativas raras: disponibilidade mineral estratégica, matriz elétrica predominantemente limpa e renovável, parque industrial diversificado, robustez agrícola e forte integração regional no Mercosul.
Contudo, capitalizar essas vantagens em desenvolvimento sustentável e soberania econômica vai exigir políticas públicas assertivas, segurança jurídica e foco na industrialização de ponta.
Em um mundo em que energia, defesa, tecnologia e inteligência artificial caminham lado a lado com os minerais críticos, a disputa deixa de ser apenas comercial. Ela ditará o lugar que cada nação ocupará no tabuleiro global nas próximas décadas e o Brasil tem, agora, a chance de jogar na primeira divisão.

