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Opinião

Project Vault, terras raras e a “estatização” americana

Terras raras: Brasil está pronto para virar protagonista global
Terras raras: Brasil está pronto para virar protagonista global
No início de fevereiro de 2026, os Estados Unidos anunciaram o Project Vault, uma reserva estratégica de minerais críticos voltada à indústria civil. O programa prevê a aquisição e o armazenamento antecipado de matérias-primas consideradas essenciais para a produção industrial, por meio de uma parceria público-privada que combina até US$ 10 bilhões em financiamento do Export-Import Bank, um banco público americano, com quase US$ 2 bilhões de capital privado.Em setembro, o projeto deu um passo da idealização para a execução, com a entrada de Glencore e Mercuria como primeiras participantes da VaultCo, empresa responsável pela implementação da reserva. Essa reserva estratégica faz parte dos esforços americanos para diminuir sua vulnerabilidade diante da elevada concentração de determinadas cadeias minerais, nomeadamente na China, e coloca novamente em discussão quais materiais são considerados críticos e quais necessidades industriais orientam essa classificação.

Em geral, a classificação associa a importância de um mineral para atividades econômicas específicas aos riscos de seu abastecimento, embora os critérios utilizados variem conforme a estrutura produtiva, as prioridades industriais e as condições de fornecimento de cada país.

Por isso, a criticidade é dinâmica: muda com as transformações tecnológicas, com a expansão de determinadas indústrias, com as restrições comerciais e com a concentração da produção. O lítio, por exemplo, teve importância estratégica nas décadas de 1950 e 1960 por suas aplicações nucleares e hoje aparece nas listas de minerais críticos de vários países sobretudo por sua utilização em baterias recarregáveis.

Como já mencionei no Jornal da USP, a trajetória das terras raras ajuda a entender essa dinâmica. O Brasil já foi líder mundial no fornecimento de monazita, um mineral que contém elementos de terras raras, e, durante parte do século 20, chegou a dominar processos de separação e produção de terras raras de alta pureza. Depois, a liderança deslocou-se para os Estados Unidos e, nas últimas décadas do século 20, para a China, que em 2010 respondia por cerca de 97% da produção mundial. Naquele período não havia acontecido nada que tornasse esses elementos geologicamente mais raros. O que havia mudado era sua inserção industrial, especialmente na fabricação de ímãs permanentes utilizados em motores elétricos e outras tecnologias, ao mesmo tempo que sua oferta e, principalmente, as etapas decisivas de seu processamento se concentravam (e ainda se concentram) em um único país.

Nesse quadro, em 2010, durante a deterioração das relações entre China e Japão, as restrições ao comércio de terras raras ganharam visibilidade internacional e ampliaram a preocupação de diferentes governos com os riscos de depender de fornecedores concentrados. O episódio costuma ser descrito como um embargo chinês que se dava por meio de quotas, impostos e outras restrições às exportações, embora sua natureza e extensão sejam mais controversas do que essa leitura sugere. Depois disso, a União Europeia, que já discutia esses riscos, formalizou em 2011 sua primeira lista de matérias-primas críticas e, em 2012, recorreu à Organização Mundial do Comércio, juntamente com Estados Unidos e Japão, contra algumas das restrições chinesas. Nesse período, vários países, incluindo o Brasil, também passaram a olhar com mais atenção para seus depósitos de terras raras, retomando estudos e projetos de mineração.

Portanto, o Project Vault responde a uma preocupação antiga e procura simultaneamente formar uma reserva emergencial, estimular fornecedores alternativos à China e reunir demanda suficiente para viabilizar novos projetos de produção, embora esses objetivos nem sempre sejam compatíveis. O Financial Times noticiou recentemente um alerta da Aerospace Industries Association, entidade que representa empresas dos setores aeroespacial e de defesa dos Estados Unidos, sobre o risco de as compras feitas para formar a reserva elevarem os preços de materiais cuja oferta já é limitada, colocando o próprio programa em concorrência com as indústrias que pretende proteger, que continuam concentradas fora dos Estados Unidos.

A mobilização de recursos públicos para proteger atividades consideradas prioritárias aparece também em outras ações voltadas à indústria. Um levantamento publicado em julho pelo Council on Foreign Relations registra que, desde janeiro de 2025, o governo dos Estados Unidos anunciou 43 operações de investimento, envolvendo US$ 29,9 bilhões, com participações no capital de empresas privadas ou instrumentos que conferem direitos semelhantes, em setores como minerais críticos, semicondutores e computação quântica, incluindo uma participação de 10% na Intel, fabricante de semicondutores. Falo em “estatização” entre aspas porque essas participações envolvem posições minoritárias ou direitos de aquisição futura, e não a tomada de controle das empresas pelo Estado.

Para o Brasil, essa discussão interessa pelo renovado interesse internacional por nossas reservas de terras raras e também porque as prioridades da indústria americana não são necessariamente as mesmas que as nossas. Desde 2010, diferentes iniciativas governamentais procuraram articular instituições científicas e empresas para recuperar competências de processamento e desenvolver aplicações industriais, incluindo programas de pesquisa e projetos voltados à fabricação de ímãs permanentes. O relatório de resultados do INCT Patria, que reúne instituições brasileiras de pesquisa, mostra que a separação dos elementos de terras raras continua sendo uma etapa decisiva para que o país avance na cadeia produtiva e não se limite ao fornecimento de concentrados minerais.

Em setembro de 2026, também foi aprovada a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que, além de definir essas categorias, prevê instrumentos de financiamento e estímulo ao desenvolvimento industrial dessas cadeias. Entretanto, o interesse externo pelas terras raras brasileiras pode ampliar os projetos de mineração, expansão que exige discutir os impactos socioambientais nos territórios envolvidos, sem necessariamente resolver as dificuldades que o país enfrenta há mais de uma década para desenvolver outras etapas da produção.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.).

Por Elaine Santos, pós-doutora pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP
Rodrigo Samy

Rodrigo Samy

Jornalista e assessor de imprensa com 25+ anos de experiência. Passagens por Estadão, WebMotors, Yamaha e Mitsubishi, além de atendimento a marcas como Jeep, Goodyear e SulAmérica. Fundador do Electric News, portal focado em mobilidade elétrica e transição energética.

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