Sem a Argentina, como Inglaterra mantém as Malvinas

Falkland Islands power station

A quase 500 km da costa da Patagônia, as Ilhas Malvinas são um dos lugares mais isolados do planeta. Cerca de 3.500 pessoas vivem espalhadas entre a capital, Stanley, e as fazendas remotas do interior, conhecidas localmente como “Camp”. Nesse isolamento, o arquipélago desenvolveu um modelo próprio de sobrevivência: uma matriz energética híbrida, uma rede de comunicação sustentada por satélites e uma economia construída quase inteiramente sobre os recursos do mar.

Uma matriz energética dividida em dois mundos

Em Stanley, onde vive a maior parte da população, a eletricidade nasce da combinação entre diesel e vento. A usina que abastece a cidade opera desde 1973, tem meio século de idade e capacidade máxima de 6,6 MW, número apertado diante de um consumo anual que já ultrapassa 17 GWh. O parque eólico de Sand Bay, funcionando desde 2007, contribui com cerca de 31% da energia consumida na cidade; o restante ainda depende dos geradores a diesel, especialmente nos dias de vento fraco.

A demanda segue um padrão bem definido: os picos de consumo acontecem no outono e no inverno, concentrados entre 7h e 21h, com dois momentos de destaque: manhã e almoço. Como a usina não conta com nenhum sistema de armazenamento em baterias, toda a energia gerada precisa ser consumida no exato momento.

Interior tem uma situação mais rústica

Fora de Stanley, a realidade é completamente diferente. Todo o restante das ilhas está fora da rede elétrica central. Desde 1996, um programa de eletrificação rural equipou as fazendas com pequenas turbinas eólicas, e hoje mais de cem unidades do modelo SD3 garantem energia constante a mais de 85% das propriedades e residências rurais. É considerado o maior conjunto de turbinas eólicas de pequena escala fora de rede do mundo, uma solução de engenharia simples, mas essencial, que substituiu geradores a diesel caros e difíceis de abastecer em locais remotos.

O plano para os próximos 20 anos

O governo das Malvinas assumiu um compromisso ambicioso: alcançar 100% de energia renovável até 2045. O caminho já está em andamento. Uma nova usina, mais eficiente e afastada de áreas residenciais, hospitais e escolas, está em fase final de aprovação para substituir a estrutura atual. O plano prevê ainda a instalação de mais de 4,6 MW em novas turbinas eólicas e 8 MW de armazenamento em baterias até 2030, um passo decisivo para reduzir a dependência de combustíveis importados, que hoje custam ao governo dezenas de milhões de libras por ano.

Conectar um arquipélago isolado

Se a energia é um desafio de engenharia, a comunicação é um desafio de distância. Por décadas, as Malvinas dependeram quase exclusivamente de satélites geoestacionários para se conectar ao resto do mundo, com uma única operadora, a Sure South Atlantic, controlando o mercado sob licença exclusiva.

Esse cenário começou a mudar recentemente. A chegada da Starlink às ilhas, no fim de 2025, reformulou por completo o panorama de conectividade local, trazendo velocidades mais altas, preços mais competitivos e, pela primeira vez em anos, opção real de escolha para os moradores. Paralelamente, o governo passou a subsidiar pacotes de internet para famílias de baixa renda a partir de fevereiro de 2026, reconhecendo que conectividade, num lugar tão isolado, é também uma questão social.

No horizonte, ainda incerto, está o projeto do South Atlantic Digital Gateway: um hub de infraestrutura de comunicações e operações espaciais anunciado por uma empresa americana, com construção prevista para começar em outubro de 2026 e a promessa, ainda distante, de um cabo submarino de fibra óptica que só deve chegar em 2029. Até lá, o satélite continua sendo o fio que liga as ilhas ao mundo.

Sobreviver do mar

Se a energia elétrica é gerada localmente, a sobrevivência econômica das Malvinas vem quase inteiramente do oceano ao redor. Depois da guerra de 1982, o Reino Unido criou uma zona econômica exclusiva de pesca ao redor do arquipélago. Logo, a venda de licenças para embarcações estrangeiras se tornou o motor da economia local.

Hoje, a pesca, especialmente de lula, responsável por cerca de três quartos da captura anual, responde por até 60% do PIB das ilhas. Ela garante um dos PIBs per capita mais altos do mundo e permitindo que o governo opere sem dívida pública e com superávit orçamentário.

A criação de ovelhas, que já foi a única atividade econômica das ilhas até os anos 1980, hoje representa menos de 2% da economia. Ou seja, mesmo com mais de um milhão de cabeças de gado ovino ainda espalhadas pelo território. O turismo, puxado por cruzeiros e pela fauna marinha — pinguins, albatrozes, leões-marinhos —, consolidou-se como o segundo maior setor econômico. E no horizonte mais distante está o petróleo: o projeto Sea Lion, em desenvolvimento há mais de uma década.

Um equilíbrio frágil, mas funcional

O que sustenta as Malvinas, no fim, é uma combinação de improviso e planejamento: energia gerada localmente com vento e diesel. Já a comunicação é garantida por satélites cada vez mais numerosos. Por fim, a economia é construída sobre a exploração cuidadosa dos recursos do mar. Com isso, um modelo de autossuficiência raro, construído não apesar do isolamento, mas por causa dele.

compartilhe:

Twitter
LinkedIn
WhatsApp