O setor de energia e serviços de utilidade pública (EU&R) no país vive um ciclo de reinvenção ativa. O recorte setorial da 29ª Global CEO Survey, lançada pela PwC, ouviu 4.400 executivos em 95 países, incluindo o Brasil, e demonstra que a convergência entre tecnologia e sustentabilidade impulsionou 50% dos CEOs do setor a competir em novos mercados.
Dentro dessa agenda, o estudo mostra que o setor de energia começa a incorporar o risco climático em decisões estratégicas de negócio. A pesquisa ressalta que essa integração ainda ocorre de forma limitada e concentrada em poucos processos.
Os avanços mais visíveis ocorrem no desenvolvimento e no design de produtos: 37% das empresas do setor já possuem processos definidos para considerar riscos e oportunidades climáticas nessa frente. O índice é superior à média brasileira (25%) e à global (24%), o que sugere que a pauta climática já influencia diretamente as decisões relacionadas à oferta, tecnologias e soluções.
Relatório PwC aponta para setor de energia mais climático e menos inovador que o discurso
Ao mesmo tempo, o setor chega a 2026 com otimismo mais contido. No cenário global, 57% dos CEOs projetam aceleração do crescimento econômico (uma queda relevante em relação a 2025) e 13% já veem desaceleração. No Brasil, o mesmo nível de otimismo convive com maior apreensão: 23% esperam desaceleração, reforçando a percepção de maior volatilidade doméstica. A confiança na receita permanece fraca, atingindo apenas 33%, abaixo da média nacional, tanto no curto quanto no médio prazo.
“A transformação acelerada do setor impõe aos CEOs escolhas cada vez mais estratégicas. Em um ambiente marcado por instabilidade macroeconômica e transição energética, é inviável avançar em todas as frentes ao mesmo tempo. A construção de valor exige priorização clara”, analisa Daniel Martins, sócio e líder do setor de energia e serviços de utilidade pública na PwC Brasil.
Ameaças de curto prazo
O perfil de ameaças identificado pelos executivos do setor para os próximos 12 meses é liderado pela instabilidade macroeconômica (33%), na sequência estão a disrupção tecnológica (27%) e a escassez de talentos (23%). As mudanças climáticas se destacam acima das referências nacional e global, sendo apontadas por 23% dos líderes do setor, contra 18% da média Brasil e 13% da média global, enquanto a inflação perde relevância, atingindo 20% e ficando abaixo das médias nacional e global.
Já os riscos geopolíticos, comerciais e cibernéticos permanecem em segundo plano, com conflitos (17%) e tarifas (13%) registrando níveis inferiores aos patamares do Brasil e do mundo. Além disso, apenas 17% dos CEOs relatam preocupações de stakeholders sobre segurança e uso responsável de IA (enquanto a média nacional é de 48%
Para garantir o futuro, o setor aposta em caminhos distintos. Na pauta de sustentabilidade, o Brasil lidera: 37% das empresas já têm processos definidos para risco climático no design de produtos (acima da média global de 24% e da nacional de 25%) e 27% integram o tema em fusões e aquisições (M&A) e na cadeia de suprimentos, índices superiores à referência nacional de 18% em ambos os casos.
Por outro lado, a inovação enfrenta barreiras culturais. Apesar de temerem a disrupção tecnológica, apenas 3% dos CEOs testam novas ideias rapidamente com clientes (média nacional é 28%) e a colaboração com parceiros externos ocorre em apenas 23% das empresas, abaixo da média brasileira de 36%.
“O avanço nas exigências de reporte em sustentabilidade ampliou a base de dados das empresas e criou uma oportunidade clara. Com decisões mais bem fundamentadas, as organizações do setor podem evoluir de uma abordagem focada apenas na mitigação de riscos para uma estratégia orientada à criação de valor, aumentando significativamente sua capacidade de adaptação às mudanças de mercado”, analisa Daniel Martins
De acordo com os CEOs, o maior obstáculo para destravar a inovação e acelerar a reinvenção é a gestão do tempo. Hoje, os líderes vivem a “opressão do curto prazo”: 56% da agenda dos CEOs brasileiros de energia é dedicada a temas com horizonte inferior a um ano. Para estratégias de longo prazo (cinco anos ou mais), são dedicados apenas 11% do tempo. Para o futuro, a recomendação é integrar a sustentabilidade e a tecnologia ao centro da criação de valor financeiro, evitando iniciativas isoladas.
“Os CEOs precisam evitar o chamado “teatro da inovação” e garantir que ela gere valor concreto. Embora não exista uma fórmula única, a adoção consistente de práticas de inovação está associada a maior participação de receitas de novos produtos e serviços, crescimento mais acelerado e margens mais elevadas, além de estimular discussões mais objetivas entre lideranças e conselhos”, conclui Daniel Martins.





