FEI: Eficiência depende mais da rede do que da geração

Estudos indicam que os maiores ganhos de eficiência no sistema elétrico brasileiro estão no consumo final e na modernização das redes. Segundo a professora Michele Rodrigues, do Centro Universitário FEI, o maior potencial de avanço está no consumo final e na distribuição, e não na geração.

Em períodos de calor extremo, as perdas aumentam e a expansão da energia solar exige redes mais inteligentes. Nesse contexto, investir em tecnologias de gestão, armazenamento e modernização da rede torna-se tão estratégico quanto ampliar a produção de energia.

Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostram que, em 2024, 88,2% da eletricidade gerada no Brasil teve origem em fontes renováveis.

Curtailment expõe limitações da rede

Apesar desse avanço, o sistema elétrico ainda enfrenta dificuldades para absorver toda a energia produzida. De acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), em 2025 o sistema registrou episódios de restrição de geração (curtailment). Em determinados períodos, até 20% da energia produzida por usinas solares e eólicas deixou de ser utilizada.

A limitação ocorre principalmente por restrições na rede elétrica e pela baixa capacidade de absorção da energia gerada em algumas regiões. Isso mostra que o desafio atual está menos na expansão da geração e mais em tornar o sistema mais eficiente, reduzindo perdas e modernizando a infraestrutura de distribuição.

Perdas se concentram no consumo final

Segundo Michele Rodrigues, da Engenharia Elétrica da FEI, o desperdício de energia no Brasil está concentrado no consumo final e na distribuição.

“O maior potencial de ganho de eficiência encontra-se no consumo final, especialmente em motores elétricos, sistemas de climatização e processos industriais que operam sem gestão energética otimizada. Em períodos de calor extremo, o aumento da temperatura ambiente eleva a resistência elétrica dos condutores, intensificando as perdas por efeito Joule.”

De acordo com a especialista, o avanço da eficiência energética no país depende da modernização da rede elétrica e do uso de tecnologias que permitam maior controle do consumo e da distribuição.

Renováveis exigem sistema mais flexível

O crescimento acelerado das fontes renováveis, especialmente solar e eólica, também expôs limitações do modelo atual do sistema elétrico brasileiro, estruturado para operar com geração centralizada e previsível.

Em regiões com grande concentração de usinas renováveis, a capacidade de escoamento da transmissão nem sempre é suficiente para levar toda a energia produzida aos centros de consumo. Além disso, a geração dessas fontes varia ao longo do dia, enquanto a demanda mantém picos concentrados em horários específicos.

Nesse cenário, um dos principais desafios passa a ser a falta de flexibilidade do sistema elétrico, ou seja, a capacidade de se adaptar rapidamente às variações de geração e demanda.

Armazenamento ganha papel estratégico

A ausência de mecanismos como armazenamento em larga escala, resposta automatizada da demanda e maior interligação entre regiões contribui para o curtailment, quando usinas renováveis precisam reduzir a produção mesmo havendo recurso natural disponível.

Para Michele Rodrigues, esse cenário indica que o foco do setor elétrico precisa evoluir. “Do ponto de vista técnico e econômico, utilizar de forma mais eficiente a energia já disponível é a estratégia mais imediata e racional. A eficiência energética permite ampliar a capacidade útil do sistema sem os elevados investimentos e impactos ambientais associados à expansão da geração.”

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