Um elemento químico leve e altamente reativo, o lítio percorreu um caminho singular ao longo dos últimos dois séculos. Descoberto em 1817 pelo químico sueco Johan August Arfwedson, o metal alcalino inicialmente despertou interesse científico por suas propriedades químicas. Hoje, ele está no centro de duas revoluções distintas: a psiquiátrica e a energética.
Virada na medicina
O uso terapêutico do lítio começou a ganhar corpo no século XX. Em 1949, o psiquiatra australiano John Cade publicou um estudo demonstrando que o carbonato de lítio poderia estabilizar pacientes com episódios de mania, marco considerado o início da utilização moderna da substância no tratamento do transtorno bipolar.
A partir da década de 1970, o lítio passou a ser amplamente adotado na psiquiatria, consolidando-se como um dos estabilizadores de humor mais eficazes. Utilizado na forma de sais, como carbonato e citrato de lítio, o medicamento atua no sistema nervoso central, reduzindo oscilações extremas de humor. Seu uso exige monitoramento médico rigoroso, já que a margem entre dose terapêutica e tóxica é estreita.
Revolução nas baterias
Enquanto ganhava espaço na medicina, o lítio também se tornava promissor na área de armazenamento de energia. Pesquisas sobre baterias de lítio começaram nos anos 1970.
Em 1980, o químico John B. Goodenough desenvolveu o cátodo de óxido de cobalto de lítio, avanço fundamental para tornar as baterias mais estáveis e eficientes. Pouco depois, em 1985, o engenheiro japonês Akira Yoshino criou o primeiro protótipo comercial viável de bateria de íon-lítio.
A tecnologia chegou ao mercado em 1991, quando a Sony lançou a primeira bateria de íon-lítio comercial para equipamentos eletrônicos portáteis. O trio Goodenough, Yoshino e Stanley Whittingham recebeu o Nobel Prize in Chemistry em 2019 pelo desenvolvimento da tecnologia que hoje alimenta smartphones, notebooks e veículos elétricos.
O mesmo elemento, funções distintas
Apesar de compartilhar a mesma base química, o lítio usado em medicamentos e o empregado em baterias não é intercambiável. Na medicina, ele é administrado na forma de sais purificados, sob controle farmacêutico rigoroso. Já nas baterias, integra compostos eletroquímicos que permitem o fluxo de íons entre eletrodos, armazenando e liberando energia.
Do consultório à transição energética
Hoje, o lítio está no centro da transição energética global. A expansão dos carros elétricos e dos sistemas de armazenamento renovável impulsiona a demanda pelo mineral, transformando-o em ativo estratégico para países produtores. Ao mesmo tempo, segue sendo referência na psiquiatria, mais de sete décadas após sua comprovação terapêutica.
Da estabilização do humor humano à estabilização das redes elétricas, o lítio tornou-se um dos elementos mais emblemáticos da ciência moderna, um metal leve com impacto pesado na sociedade contemporânea.
Onde há lítio?
A natureza concentra o lítio principalmente em salmouras subterrâneas e em rochas minerais. A extração não é diferente para “lítio de remédio” e “lítio de bateria”, o que muda é o processamento e o grau de pureza final. No processo, a salmoura é bombeada para a superfície e colocada em tanques de evaporação solar. Após meses de concentração, obtém-se carbonato ou hidróxido de lítio. No Brasil, empresas exploram o mineral principalmente em Minas Gerais, na região conhecida como “Vale do Lítio”.





