Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) publicaram um estudo em 2026 sobre moluscos bivalves. O artigo detalha a presença de proteínas fotorreceptoras nesses animais. Ou seja, tanto ostras como mexilhões percebem a presença da luz. A equipe analisou 17 espécies para mapear a percepção luminosa.
O trabalho científico destaca a presença de moléculas chamadas opsinas. A retina humana utiliza cinco tipos dessas proteínas para formar imagens. Contudo, os moluscos desprovidos de olhos produzem até nove tipos diferentes.
Diversidade proteica surpreende cientistas
As espécies com estruturas visuais primitivas apresentam de cinco a 12 variantes proteicas. Essa rede complexa permite a detecção exata de variações na luz ambiente. Portanto, a pele desses animais capta estímulos luminosos com grande precisão.
Um artigo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B descreve que, enquanto a retina humana utiliza apenas cinco tipos dessas proteínas para conseguir formar imagens, os moluscos totalmente desprovidos de ocelos (estruturas visuais primitivas) chegam a produzir até nove.
O primeiro autor da pesquisa, Jorge Audino, aponta a relevância do achado. Cientistas coletaram nove espécies no litoral de São Paulo e 3 nos Estados Unidos. Outras 5 espécies integraram a análise por meio de dados públicos.
“Sabíamos que há bivalves sem ocelos que percebem o sombreamento e se fecham nas conchas, como forma de proteção contra predadores. Mas ficamos surpresos com a quantidade de opsinas nessas espécies. Quando há ocelos, então, a diversidade é ainda mais surpreendente. Isso mostra que a fotopercepção dérmica, na pele desses animais, é mais complexa do que se imaginava, com funções ainda não investigadas”, conta Jorge Audino, primeiro autor do estudo, realizado durante pós-doutorado no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) com bolsa da FAPESP.
Um outro estudo publicado em 2020 por pesquisadores dos Estados Unidos, por exemplo, lista cicatrização, crescimento do cabelo e envelhecimento gerado pela luz solar entre os processos mediados por opsinas expressas na pele humana.
Em outros animais, opsinas foram detectadas na pele de moscas, peixes, sapos, polvos, ouriços-do-mar e camundongos. As proteínas estavam envolvidas na mudança da cor da pele, detecção de luz e no ciclo circadiano, mecanismo pelo qual os organismos sincronizam o relógio interno com o dia e a noite.
Financiamento e impacto ecológico
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo financiou o projeto científico. José Eduardo coordenou a investigação no Instituto de Biociências da universidade. Assim, o grupo avançou na compreensão da fisiologia desses organismos.
Compreender tais mecanismos ajuda a avaliar os danos causados pela poluição luminosa. Ademais, protege funções ecológicas essenciais exercidas pelos moluscos no ecossistema marinho.
O artigo Ocular and extraocular expression of opsins reveals evolutionary trends underlying visual and non-visual functions in bivalves (Pteriomorphia) pode ser lido em: royalsocietypublishing.org/rspb/article/293/2070/20260348/481616/
André Julião | Agência FAPESP
