Conta de luz acima da inflação: ANEEL eleva projeção para 9,4%

2026 deve marcar virada para energia, mobilidade e consumo

Os consumidores brasileiros de energia elétrica devem se preparar para um impacto significativo no bolso até o final de 2026. Segundo dados consolidados no boletim infoTARIFA (Nº 6 / Setembro de 2026), publicado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a previsão revisada para o efeito tarifário médio no Brasil subiu para 9,4%.

O reajuste supera com folga as projeções inflacionárias atualizadas pelo Banco Central para o ano, representadas pelo IGP-M (4,4%) e pelo IPCA (5,0%). A disparada é impulsionada principalmente pela elevação dos encargos setoriais, com destaque para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), além da pressão nos componentes financeiros e nos custos de compra de energia.

Raio-X do aumento e distribuição do impacto no mercado

A alta nas contas de luz não afetará a todos de forma homogênea. De acordo com a ANEEL, o efeito varia substancialmente conforme a área de concessão. Apenas 5% do mercado terá reajustes médios brandos, em torno de 0,7%. A maior parcela, correspondente a 33% do mercado, enfrentará aumentos médios na casa de 7,4%. Já na ponta mais alta, 16% do mercado sofrerá impactos pesados, com reajustes médios que chegam a 17,6%.

Do valor total pago na tarifa de energia, sem contar impostos estaduais e federais, a parcela mais expressiva destina-se à geração de energia, que custa R$ 346/MWh e representa 40,9% do total. A distribuição (Parcela B) responde por R$ 263/MWh (31,1%), enquanto os encargos setoriais absorvem R$ 177/MWh (20,9%) e a transmissão fica com R$ 60/MWh (7,1%). Sobre esses valores, ainda incidem alíquotas médias “por dentro” de 17,2% de ICMS e 5,3% de PIS/Cofins.

O peso dos subsídios e a tentativa de limitação da CDE

Um dos maiores vilões do custo de energia no país continua sendo o volume de subsídios bancados pela Conta de Desenvolvimento Energético. O “Subsidiómetro” da ANEEL registrou a marca de R$ 56.258.542.664,73 acumulados no período entre setembro de 2025 e agosto de 2026. Para conter essa escalada, a agência abriu a Consulta Pública nº 28/2026 com o objetivo de regulamentar um teto de despesas da CDE a partir de 2027, limitando os gastos com incentivos ao carvão mineral, fontes incentivadas e geração distribuída com base no orçamento de 2025 corrigido pela inflação. Caso os limites sejam ultrapassados, será acionado o Encargo de Complemento de Recursos (ECR) para que os próprios beneficiários excedentes arquem com o custo excedente.

Fatos tarifários e medidas de alívio adotadas em 2026

Apesar da pressão de alta, a ANEEL aprovou medidas para amortecer o reajuste. Entre elas está a distribuição de R$ 5,5 bilhões decorrentes da antecipação do Uso de Bem Público (UBP) das usinas hidrelétricas para distribuidoras das áreas da Sudam e da Sudene, visando à modicidade tarifária. Adicionalmente, em agosto de 2026, cerca de 83 milhões de consumidores residenciais e rurais de menor consumo receberam em suas faturas uma fatia dos R$ 872 milhões do bônus de Itaipu, gerando um crédito médio de R$ 10,41 por unidade. Para o mês de setembro de 2026, a ANEEL confirmou o acionamento da Bandeira Tarifária Amarela devido às condições hidrológicas menos favoráveis do período.

Fim da descotização da Eletrobras e custos de reserva

O ciclo tarifário de 2026/2027 marca a etapa final da descotização gradual das 13 usinas hidrelétricas da antiga Eletrobras (atual Axia Energia). Com a saída dessas usinas mais baratas do regime de cotas, a Receita Anual de Geração (RAG) caiu 6,34%, mas a tarifa média da energia cotizada remanescente subiu 19,8%, alcançando R$ 257,54/MWh e elevando o custo unitário repassado às distribuidoras. Paralelamente, a entrada em vigor de novos contratos dos Leilões de Reserva de Capacidade (ERCAP) para garantir a segurança do sistema fará os desembolsos mensais passarem de R$ 192 milhões em junho para cerca de R$ 650 milhões até o fim de 2026, gerando um impacto de +0,3% no efeito médio Brasil.

A transição com a Reforma Tributária

A substituição do PIS/Cofins, IPI, ICMS e ISS pela CBS e pelo IBS alterará profundamente a apuração dos custos do setor. Como os novos tributos deixam de compor a própria base de cálculo e não representam mais custo direto para as concessionárias, haverá uma ampla recuperação de créditos tributários sobre investimentos e insumos. Isso reduzirá o valor reconhecido em futuros ciclos de revisão na Base de Remuneração Regulatória (BRR), aliviando as tarifas no longo prazo.

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