A conta de luz subiu porque o Bônus de Itaipu funcionava como um desconto na tarifa de energia, e a redução desse benefício fez o consumidor perder parte do abatimento que recebia na fatura. O ponto central é que a energia de Itaipu continua sendo gerada. O que mudou, na verdade, foi a forma como o benefício financeiro da usina é repassado aos consumidores.
Como o Bônus de Itaipu funcionava?
O bônus era uma devolução de recursos excedentes da comercialização da energia de Itaipu. Quando havia saldo positivo na conta de comercialização da usina, esse dinheiro podia ser destinado à redução das contas de luz de consumidores atendidos pelas distribuidoras.
A Usina Hidrelétrica de Itaipu desempenha um papel central no valor da conta de luz dos brasileiros, principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O impacto da hidrelétrica nos boletos de energia é moldado por quatro fatores principais.
Pelo Tratado de Itaipu, a energia gerada é dividida em partes iguais entre Brasil e Paraguai. Como o país vizinho não consome toda a sua cota, o Brasil é obrigado a adquirir o excedente. O custo dessa compra é repassado diretamente para as distribuidoras de energia e, consequentemente, para o consumidor final.
A construção da usina envolveu empréstimos bilionários que responderam por até 70% do custo da energia de Itaipu por décadas. Com o pagamento total dessa dívida em fevereiro de 2023, o custo de produção despencou, abrindo espaço para a redução da tarifa base da usina.
Nos anos em que a comercialização da energia de Itaipu gera saldo positivo, a ANEEL repassa o excedente financeiro aos consumidores na forma de crédito. Esse valor aparece destacado nas faturas sob a rubrica “Bônus Itaipu”, abatendo o valor total a pagar.
Renegociação do Anexo C e investimentos regionais
Após 50 anos do tratado original, a definição da nova tarifa tornou-se alvo de negociação diplomática. Enquanto o Paraguai busca tarifas mais altas para custear infraestrutura local, o governo brasileiro defende a modicidade tarifária para baratear a energia. Paralelamente, os investimentos socioambientais e institucionais mantidos pela usina entram no cálculo do custo final da energia comercializada.
Vale dizer que o fim do Bônus de Itaipu fez a inflação oficial de setembro, apurada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), fechar setembro em 0,82%. É o maior patamar desde março de 2026 (0,88%).

Com o índice de setembro, a inflação passa a acumular 4,58% em 12 meses, acima da meta do governo, que tolera até 4,5%. Em agosto, quando o IPCA havia apresentado deflação (-0,32%), o acumulado estava em 4,22%. Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Habitação, transportes e alimentos:
Alimentação e bebidas: 0,83% (impacto de 0,18 p.p.)
Habitação: 2,31% (0,35 p.p.)
Artigos de residência: 0,27% (0,01 p.p.)
Vestuário: 0,71% (0,03 p.p.)
Transportes: 0,89% (0,18 p.p.)
Saúde e cuidados pessoais: 0,08% (0,01 p.p.)
Despesas pessoais: 0,26% (0,03 p.p.)
Educação: 0,04% (0,00 p.p.)
Comunicação: 0,64% (0,03 p.p.)
Fim do bônus Itaipu
A habitação foi o grupo que mais pressionou o IPCA por causa do custo da energia elétrica, que avançou 7,98% em setembro. Dessa forma, a conta de luz foi o preço que mais puxou a inflação para cima no mês passado, com impacto de 0,32 ponto percentual. Em agosto, havia caído 7,63%.
Transportes
O grupo de transportes (+0,89%) foi pressionado pelas passagens aéreas, que subiram 9,66%. Além disso, os combustíveis ficaram 1,41% mais caros. Houve elevação nos preços da gasolina (1,21%), etanol (3,16%), óleo diesel (1,69%) e do gás veicular (0,10%).
O IPCA apura o custo de vida para famílias com rendimentos entre um e 40 salários mínimos. A coleta de preços é feita em dez regiões metropolitanas – Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre – além de Brasília e nas capitais Goiânia, Campo Grande, Rio Branco, São Luís e Aracaju.
