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Transporte

O que falta para eletrificação de autos avançar?

As vendas dos carros elétricos não param de crescem no Brasil, mas ainda esbarram um bocado na infraestrutura. É quase possível dizer que a mobilidade elétrica precisa ultrapassar a barreira do som para seguir viagem.
As vendas dos carros elétricos não param de crescer no Brasil, mas ainda esbarram um bocado na infraestrutura

A expansão dos veículos eletrificados no Brasil altera as exigências de prevenção de incêndios em garagens coletivas e impulsiona o desenvolvimento de novas tecnologias de controle de fuga térmica apresentadas na Fire Show 2026. O evento ocorre até hoje (8) de outubro no São Paulo Expo.

Hoje, os protocolos tradicionais enfrentam limitações técnicas diante desse cenário de eletrificação acelerada da frota nacional. Nesse contexto, há necessidade de atualização das normas técnicas para edificações e equipes de emergência, equilibrando inovação e segurança nas garagens subterrâneas.

Tecnologias para detecção térmica

Entre as novidades do segmento estão os sistemas de compartimentação e detecção precoce para conter os riscos associados à radiação térmica extrema e à emissão de gases tóxicos. O uso de cortinas corta-fogo isola a área afetada e protege contra o fluxo de calor, que atinge temperaturas próximas de 1.100 graus Celsius junto ao teto em testes de simulação.

Paralelamente, os sistemas de detecção térmica linear monitoram a temperatura ao longo dos telhados das garagens para reduzir alarmes falsos e acionar automaticamente as barreiras de proteção. Essas soluções tecnológicas buscam blindar os veículos vizinhos contra a propagação de chamas enquanto as equipes especializadas iniciam o combate ao fogo.

Inovações no resfriamento e combate direto

O setor industrial também desenvolve agentes extintores específicos para o resfriamento de células de lítio em pontos de recarga e sistemas de armazenamento de energia. Essas fórmulas atuam na contenção das chamas e formam uma camada protetiva nas superfícies tratadas, reduzindo o risco de reignição prolongada após a ocorrência do sinistro. Os fabricantes ampliam o portfólio com extintores portáteis e sistemas fixos voltados para atender às demandas de segurança em garagens comerciais e residenciais.

Para Adriano Resende, diretor de marketing do Grupo Ramasa, o setor de veículos elétricos está tão aquecido que a cadeia já ultrapassa a barreira dos novos. Ele conta que o grupo trabalha com marcas renomadas e que a percepção da escolha por modelos híbridos e elétricos é nítida. “Hoje, o cliente não tem mais dúvidas ou incertezas sobre a escolha de um carro. Ele, na verdade, chega à loja bem informado e com a decisão na cabeça. A mesma regra vale para híbridos e elétricos, que, mesmo seminovos, não estão parando no estoque”.

Outro fator que o executivo credita ao aumento da confiança está no aumento do número e de possibilidade de recarga. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico e a plataforma Tupi, há 29.866 pontos públicos e semipúblicos em todo o país. O indicador resulta em uma proporção média de 21,4 carros eletrificados para cada ponto de recarga disponível. 

Crescimento dos carregadores rápidos em corrente contínua

A infraestrutura passou por uma transformação expressiva na modalidade de atendimento. Os equipamentos de recarga rápida em corrente contínua somam 11.397 unidades e já representam 38,2% da rede nacional. Essa categoria expandiu 195,6% nos últimos 12 meses, impulsionada pela queda nos custos dos equipamentos e pela demanda por viagens de longa distância.

Os carregadores lentos de corrente alternada permanecem como base predominante nas garagens residenciais e comerciais, contabilizando 18.469 pontos. Contudo, a instalação de novas unidades rápidas superou o ritmo da recarga convencional nos últimos meses.

Apesar do avanço na infraestrutura, especialistas apontam que o crescimento a longo prazo depende da capacitação técnica do setor. A consolidação da eletromobilidade exige investimentos urgentes em treinamento de mecânicos, padronização de reparações e métodos confiáveis para a medição da saúde das baterias.

Formação profissional e segurança na alta tensão

A manutenção de veículos eletrificados exige domínio sobre sistemas de alta tensão, eletrônica avançada e diagnósticos digitais complexos. Embora alguns componentes mecânicos permaneçam similares aos dos carros a combustão, a reparação exige protocolos rígidos de segurança.

O setor conta atualmente com a prática recomendada ABNT PR 1025 para orientar os procedimentos de manutenção. Contudo, a ausência de uma norma técnica obrigatória mantém o desafio da qualificação profissional no país.

Os centros de treinamento precisam preparar os mecânicos para lidar com o Sistema de Gerenciamento da Bateria, inversores e sistemas de gestão térmica. Além disso, as equipes técnicas aprendem a executar o procedimento de desenergização para garantir a segurança durante o reparo de componentes de alta tensão. Atualmente, a manutenção especializada concentra-se nas redes de concessionárias autorizadas.

Padronização de reparos e avaliação da bateria

O recondicionamento de baterias ainda ocorre sem uma regulamentação nacional específica. As oficinas especializadas utilizam diretrizes internacionais para testar células de íon de lítio e assegurar a estabilidade dos sistemas eletrônicos após a intervenção técnica.

A bateria representa entre 30% e 50% do valor total de um veículo elétrico. Por isso, a avaliação precisa do estado de saúde do componente tornou-se um fator financeiro crítico para o mercado de revenda.

O uso frequente de carregadores ultrarrápidos e a exposição prolongada a climas quentes aceleram a degradação química das células. Como o diagnóstico fornecido pelo software original da montadora pode variar, o mercado busca laudos técnicos independentes e rastreáveis.

A emissão de certificados padronizados sobre a capacidade residual e o envelhecimento das células funcionará de maneira similar ao laudo cautelar tradicional. Com essa ferramenta, o consumidor ganha segurança para avaliar veículos eletrificados usados no mercado brasileiro.

Porém, para uma oficina independente viabilizar a manutenção adequada, os elevadores automotivos, por exemplo, precisam oferecer um piso totalmente livre. Esse arranjo técnico facilita a retirada segura de baterias pesadas e otimiza o fluxo de trabalho dos mecânicos. A capacitação profissional caminha lado a lado com a modernização dos equipamentos, garantindo segurança operacional e eficiência nos diagnósticos digitais.

“A eletrificação muda o veículo, mas ele continua precisando de manutenção, de equipamentos adequados para o trabalho da oficina e de um local para ser estacionado e carregado. Nossos elevadores podem atender os carros elétricos normalmente e, nos duplicadores, é possível prever a recarga utilizando cabos mais longos para alcançar os veículos nas diferentes posições”, explica Flavio Fornasier, CEO da Emaster.

Seguro do carro elétrico também está em alta

O mercado brasileiro de seguros automotivos registrou retração generalizada no preço médio das apólices durante agosto de 2026. O levantamento é da Creditas Seguros. A pesquisa também aponta que os veículos eletrificados passaram por quedas expressivas nas cotações, mas continuaram entre os modelos mais caros do ranking nacional devido ao custo de reposição de peças e à maturação tecnológica do setor.

O valor médio das apólices dos dez carros mais vendidos recuou 23,79% para o perfil masculino, passando para R$ 2.212,73 no período. Para o perfil feminino, a redução atingiu 21,45%, com o preço médio fixado em R$ 2.118,10. Marcelo Baseoti, gerente da Creditas Seguros, explica que a baixa representa uma acomodação natural após a alta de julho.

Os modelos eletrificados mantiveram as maiores faturas do estudo. O veículo híbrido BYD Song Plus liderou o ranking com os maiores valores para ambos os gêneros. O elétrico BYD Dolphin também apresentou recuo superior a 20% nas apólices destinadas a homens e mulheres.

Por outro lado, automóveis a combustão populares registraram as maiores reduções mensais. O modelo Novo Polo Track e o hatch Argo lideraram as quedas expressivas nas cotações em relação a julho. Entre as capitais analisadas, o Rio de Janeiro concentrou os valores médios mais altos do país, enquanto São Paulo e Florianópolis registraram algumas das opções mais acessíveis para os motoristas.

Dinâmica de mercado e perspectivas para o setor

A volatilidade mensal reflete a adaptação contínua do mercado segurador à nova frota circulante no Brasil. A entrada constante de tecnologias eletrificadas exige que as companhias ajustem suas matrizes de risco com base na sinistralidade e na complexidade dos reparos. Especialistas reforçam que a pesquisa frequente de preços permite ao consumidor aproveitar momentos de baixa para contratar ou renovar proteções veiculares vantajosas.

● BYD Dolphin GS 180 EV 5 Portas Elétrico Automático 4P: Para os homens, o custo da apólice recuou de R$ 3.393,14 em julho para R$ 2.669,13 em agosto, uma queda de 21,34%. Para as mulheres, diminuiu de R$ 3.028,64 para R$ 2.308,76, uma baixa de 23,77%. Entre as capitais, para os homens, os menores preços foram em São Paulo (R$ 2.276,16), Florianópolis (R$ 2.283,56) e Brasília (R$ 2.529,27); para as mulheres, em São Paulo (R$ 2.178,46), Vitória (R$ 2.214,08) e Porto Alegre (R$ 2.217,49).

BYD mostra Dolphin G híbrido no Goodwood Festival
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Rodrigo Samy

Rodrigo Samy

Jornalista e assessor de imprensa com 25+ anos de experiência. Passagens por Estadão, WebMotors, Yamaha e Mitsubishi, além de atendimento a marcas como Jeep, Goodyear e SulAmérica. Fundador do Electric News, portal focado em mobilidade elétrica e transição energética.

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