O mercado de data centers no Brasil passa por um momento de expansão acelerada. A nação está posicionada como o principal hub de infraestrutura digital da América Latina. Estima-se que o país concentre mais de 60% a 70% do mercado da região. As maiores gigantes de tecnologia (AWS, Microsoft Azure, Google Cloud, Oracle Cloud) têm regiões ativas no Brasil.
Os motivos que saltam aos olhos estão no fato de 80% da eletricidade brasileira vir de fontes limpas. Outro motivo está na presença da sólida rede de cabos submarinos de fibra óptica. Todos eles conectados diretamente aos Estados Unidos, Europa, África e restante da América Latina (com pontos estratégicos em Fortaleza, Rio de Janeiro e Santos).
Vantagens para o crescimento de um novo mercado
A ABDC (Associação Brasileira de Data Centers) tem destacado que a Inteligência Artificial é o grande motor do setor e que o Brasil atingiu a marca histórica de 1 GW de capacidade instalada de TI. Segundo o vice-presidente da associação, Luis Tossi, a infraestrutura é inseparável da regulação de IA: “não há inteligência artificial sem capacidade computacional estável e acessível”.
Em outro olhar, a Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação) projeta que o setor de data centers no Brasil receberá mais de R$ 250 bilhões em investimentos dedicados nos próximos anos, como parte de um ciclo de R$ 736 bilhões focado em IA.

Para o presidente executivo da Brasscom, Affonso Nina, “O Brasil tem a oportunidade de se consolidar como o grande polo regional de processamento de dados da América Latina. A nossa capacidade instalada de data centers tem potencial para quase triplicar, passando de 800 MW para cerca de 2,6 GW a 3,1 GW até o fim da década, movimentando dezenas de bilhões de dólares em toda a cadeia devido à demanda avassaladora por IA e nuvem.
Custo Brasil atrapalha o avanço dos data centers
Mas nem tudo que reluz é joia. O maior desafio é a baixa capacidade de conexão e transmissão elétrica. Hoje, São Paulo, fila de conexão das distribuidoras e transmissoras de energia, saturada. Uma espera longa para se levantar algo muito além de um simples galpão.
Outro fantasma é a carga tributária dos equipamentos computacionais avançados (como servidores com GPUs de alta performance), que dependem de importação, arcando com taxas e impostos elevados. Medidas regulatórias e incentivos fiscais (como o debate do projeto REDATA) buscam desonerar o setor e aumentar a competitividade frente a outros países.
Pisando em terra firme

Thays Gentil, sócia da área de telecomunicações do Cescon Barrieu, explica que um projeto de data center vai muito além do que se imagina. “O terreno, por exemplo, precisa ser muito vocacionado a receber essa infraestrutura, em vários sentidos: localização, acesso à água (apesar de, no Brasil, termos mais a utilização de circuitos fechados), energia estável, conectividade por fibras ópticas e ter operação 100% estável”, explica a advogada.
“Outro detalhe é que eles devem estar sempre próximos a rodovias, pois também é necessário que haja uma questão de logística, do transporte”.
“A gente já viu alguns casos de empreendedores falarem: tenho aqui um terreno, quero fazer um data center. Porém, não é bem assim que funciona. É preciso entender todas essas frentes e ver se aquilo realmente funciona. Hoje, se o empreendedor conseguir fazer tudo certo, ou seja, obter o acesso à rede, construir o galpão, ter as licenças, adquirir os equipamentos e colocar tudo para funcionar, a disponibilização de uma linha de transmissão pode levar até 8 anos”, acrescenta a sócia da área de energia do Cescon Barrieu, Ana Carolina Calil.
Consumo de energia é relativo

Outro ponto destacado pela advogada Ana Carolina Calil, que também é cocoordenadora da Comissão de Regulação do IBDE (Instituto Brasileiro de Direito de Energia), é que, sempre que um cliente resolve atuar na linha dos data centers, a principal preocupação é garantir o suprimento de energia e a conexão à rede (na maioria dos casos, à rede de transmissão).
“O Brasil possui uma grande sobreoferta de energia renovável abundante, mas sofre com a falta de capacidade de escoamento dessa energia. Por ser um consumidor extremamente intensivo, o data center ajuda o sistema elétrico ao consumir e retirar essa sobreoferta de energia da rede.”
Hoje, a grande questão é que não existe ponto de conexão em todo lugar que você imagina: “agora, ao contrário da regra anterior, que era ‘quem chegar primeiro levaʼ, a gente tem um processo competitivo com base em valor maior de outorga. Então, as regras mudaram, e o mercado de data centers vem se transformando.”
Menores frascos, grandes comprimidos
Além do data center, há o conceito Edge Computing (computação na borda). Trata-se de uma arquitetura de TI que consiste em processar os dados o mais próximo possível de onde eles são gerados, em vez de enviá-los para um servidor centralizado ou para a nuvem (cloud) localizado a centenas ou milhares de quilômetros de distância.
São os mini data centers que ficam espalhados, oferecendo mais capilaridade, justamente para que você tenha o processamento da informação mais próximo do consumidor final.
Portanto, é possível dizer que o Brasil deixou de ser apenas um mercado consumidor de nuvem para se tornar uma potência global de infraestrutura computacional para a era da IA, em que os maiores trunfos são a energia renovável abundante e a conectividade, e o principal obstáculo é o tempo necessário para adequar a infraestrutura de rede elétrica aos projetos de megawattage intensiva.
Como construir um data center no Brasil:
1. Planejamento Inicial
2. Definir capacidade em Megawatts (MW) e modelo (Colocation, Hyperscale ou Edge).
3. Garantir o investimento/orçamento (Capex e Opex).
4. Terreno e Localização
5. Comprar ou arrendar terreno plano e fora de área de risco.
6. Confirmar proximidade com redes de energia e fibra óptica.
7. Energia e Conexão
8. Solicitar e aprovar a carga elétrica com a distribuidora/ONS.
9. Contratar fornecimento de energia limpa/renovável.
10. Licenças
11. Obter Licenças Ambientais (Prévia, Instalação e Operação).
12. Obter Alvará de Construção com a prefeitura local.
13. Projeto e Engenharia
14. Desenhar o projeto executivo (Civil, Elétrica, Refrigeração e Segurança).
15. Definir o nível de redundância (ex: Certificação Tier III).
16. Compra de Equipamentos
17. Encomendar geradores, no-breaks (UPS), chillers e transformadores.
18. Gerenciar a importação e o desembaraço alfandegário.
19. Obras e Montagem
20. Construir o galpão e a subestação de energia própria.
21. Instalar sistemas de refrigeração, no-breaks, geradores e fibra óptica.
22. Testes e Certificação
23. Fazer os testes de estresse e simulação de falhas (Comissionamento).
24. Obter certificações formais (Uptime Institute, ISO, LEED).
25. Inauguração e Operação
26. Pegar o Habite-se e a Licença de Operação final.
27. Contratar equipe técnica 24/7 e liberar o espaço para os clientes.





