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Opinião

“A Fé na Era dos Algoritmos”

"A Fé na Era dos Algoritmos"
"A Fé na Era dos Algoritmos"

Dom Edson Oriolo tem uma trajetória marcada pela análise rigorosa dos fenômenos tecnológicos, que não se limita a observar a técnica, mas mergulha na mística que deve orientar a presença cristã na cultura digital. Como surgiu seu interesse em estudar a interseção entre a tecnologia e a fé?

Minha preocupação intelectual e pastoral com o tema começou nas salas de aula, enquanto eu lecionava Filosofia da Ciência. Naquela época, o Papa São João Paulo II publicou a Carta Encíclica Fides et Ratio, um documento que se tornou o divisor de águas para a minha reflexão. A partir dela,  passei a estudar os riscos do fideísmo, que anula a inteligência, e o do racionalismo, que fecha as portas para o transcendente. Desde então, busquei compreender como viver o equilíbrio entre a fé e a razão na contemporaneidade, especialmente na tensão entre o saber (a ciência) e o fazer (a tecnologia), garantindo que o progresso técnico nunca caminhe divorciado do sentido profundo da existência humana.

Sua preocupação com o ambiente digital não é nova: o senhor já soma centenas de artigos e três livros sobre o tema. Quais são os títulos dessas três obras anteriores e como cada uma delas ajudou a amadurecer a reflexão que o senhor nos apresenta agora?

Minha reflexão sobre o ambiente digital foi sendo construída gradualmente por meio das obras Evangelização Online (Paulus), A Evangelização no Metaverso com a Inteligência Artificial (Canção Nova) e A Inteligência Artificial como Ferramenta de Evangelização (Ave Maria). Em cada uma delas procurei estudar novas metodologias e estratégias para que a Igreja dialogue com o mundo contemporâneo. Essa experiência, somada às pesquisas e aos artigos publicados ao longo dos anos, permitiu-me amadurecer uma reflexão mais profunda sobre os aspectos antropológicos, éticos e missionários da era digital, que agora apresento em A Fé na Era dos Algoritmos, publicado pela Editora Ave Maria.

Dom Edson, em sua obra recém-lançada, nota-se que diversos temas, a exemplo da dignidade humana, da ética, do cuidado com a criação, do bem comum e da clareza algorítmica antecipam ou ecoam as diretrizes centrais da encíclica Magnifica Humanitas. Como o senhor descreveria essa convergência entre as suas reflexões e a visão antropológica apresentada pelo Papa Leão?

Fiquei muito feliz ao perceber a sintonia entre as reflexões que apresento em minha obra e as orientações do Papa Leão XIV sobre a inteligência artificial, à luz da fé e da razão. Temas como a dignidade humana, a ética, o bem comum, o cuidado com a criação e a transparência dos algoritmos aparecem tanto em minhas reflexões quanto no Magistério da Igreja.

Essa convergência confirma a importância de compreender a Inteligência Artificial, seja a conversacional, preditiva, analítica ou generativa, a partir de uma visão que coloque a pessoa humana no centro. A tecnologia é um instrumento valioso, mas deve sempre estar a serviço da vida, da verdade e da promoção da dignidade humana.

Vejo essa sintonia como um sinal de que a Igreja está oferecendo ao mundo critérios seguros para discernir os desafios e as oportunidades da era digital. Em tempos de fake news e desinformação, o Evangelho continua sendo a verdadeira Good News, capaz de iluminar o desenvolvimento tecnológico com os valores da justiça, da fraternidade e do bem comum.

Tanto no seu livro a Fé na Era dos Algoritmos quanto na encíclica Magnifica Humanitas, há uma ênfase de que a IA nunca pode substituir o valor, a liberdade e a responsabilidade humanas.  Como os agentes de pastoral podem utilizar os algoritmos para a evangelização sem cair na armadilha de tratar o fiel como um mero dado estatístico?

Os agentes de pastoral podem utilizar os algoritmos como instrumentos para ampliar o alcance da evangelização, identificar necessidades da comunidade e favorecer a comunicação da mensagem cristã. No entanto, é essencial lembrar que a fé não se reduz a métricas, perfis ou dados estatísticos. Cada pessoa é única, criada à imagem e semelhança de Deus, e possui dignidade própria que nenhuma tecnologia pode medir plenamente.

A Inteligência Artificial pode ajudar a conhecer melhor a realidade pastoral, mas jamais substituir o encontro humano, o discernimento, a liberdade e a responsabilidade moral. Os algoritmos podem indicar caminhos, mas as decisões e o cuidado pastoral devem permanecer nas mãos das pessoas. Evangelizar é encontrar rostos, acolher histórias e acompanhar vidas, não apenas analisar dados. Assim, a tecnologia deve estar sempre a serviço da pessoa humana e do anúncio do Evangelho, nunca transformando o fiel em um simples número ou objeto de análise.

Considerando que o senhor apresenta a fé como uma bússola na era digital, qual é o principal conselho que a leitura conjunta de “A fé na era dos algoritmos” e da Magnifica Humanitas oferece para os ministros que lidarão com uma Igreja cada vez mais tecnológica?

Um conselho que apresento aos leitores encontra-se no tópico o risco ético da autonomia algorítmica. Diante do fato de que nós, ministros, atuaremos em uma Igreja cada vez mais tecnológica, torna-se necessário centralizar a atenção no discernimento humano-cristão. Para isso, é fundamental acompanhar criticamente a forma como essa ciência algorítmica está sendo aplicada, bem como os objetivos econômicos e os interesses de poder que podem estar por trás desse universo digital. Embora a inteligência artificial seja mais veloz, precisa e eficiente no processamento de dados e na previsão de comportamentos, ela é incapaz de tomar decisões que exijam discernimento moral, empatia e responsabilidade. As máquinas realizam escolhas com base em sistemas de dados e cálculos probabilísticos; contudo, os atributos éticos, morais e espirituais permanecem intrinsecamente humanos.

Todos nós ministros devem garantir que o avanço tecnológico na Igreja não priorize a eficiência cega em detrimento das pessoas. A tecnologia deve ser utilizada de forma responsável e justa, servindo como uma ferramenta para proteger a dignidade humana, promover o bem-estar social e construir a civilização do amor, inscrevendo os valores éticos e os princípios da Doutrina Social da Igreja no ecossistema digital.

Dom Edson, o senhor incluiu um posfácio no livro “A fé na era dos algoritmos”, alinhando a conclusão do livro a uma leitura complementar e paralela com a encíclica Magnifica Humanitas. Por quê?

O posfácio foi acrescentado após a publicação da encíclica Magnifica Humanitas, para mostrar a profunda sintonia entre as reflexões apresentadas em A Fé na Era dos Algoritmos e o ensinamento recente do Magistério da Igreja. Minha intenção foi oferecer ao leitor uma chave de leitura complementar, evidenciando que a tecnologia e os algoritmos devem estar sempre subordinados à dignidade da pessoa humana, ao bem comum e aos valores do Evangelho.

Ao ler o livro, em paralelo com a encíclica, o leitor perceberá que a fé não teme os avanços tecnológicos, mas os ilumina com critérios éticos e espirituais. O posfácio, portanto, reforça que a técnica não é um fim em si mesma: ela deve estar a serviço do ser humano. Dessa forma, a obra se harmoniza ainda mais com o pensamento do Papa Leão XIV e ajuda os cristãos a viverem sua fé de modo consciente, responsável e humanizador na era dos algoritmos.

Olhando agora para o presente e para o futuro: o senhor poderia nos apresentar uma síntese de A Fé na Era dos Algoritmos? O que o leitor encontrará de mais urgente nessa nova obra?

A Fé na Era dos Algoritmos, obra nascida de uma provocativa série de reflexões originalmente publicadas no Vatican News, recusa-se a ser apenas mais um manual técnico ou um tratado sobre Inteligência Artificial conversacional, preditiva, analítica e generativa. Em vez disso, o texto se desdobra diante do leitor como um ensaio de profunda sensibilidade antropológica, ética e pastoral, estendendo um convite irrecusável para uma degustação lenta e reflexiva. Nesse espaço de reflexão crítica, a lucidez intelectual e o discernimento eclesial constituem elementos metodológicos fundamentais para salvaguardar a autonomia humana diante do denso e intrincado fluxo da ciência de dados e da algoritmização contemporânea.

Essa compreensão da obra é expressa com especial lucidez por Silvonei José, jornalista do Vatican News e da Rádio Vaticano, autor do prefácio. Ao apresentar o livro, ele destaca que a reflexão proposta ultrapassa a análise técnica da Inteligência Artificial para oferecer um discernimento espiritual, antropológico, ético e pastoral sobre os desafios da cultura digital, iluminando questões fundamentais relacionadas à dignidade humana, à liberdade, à consciência moral e à missão evangelizadora da Igreja. Seu prefácio oferece, assim, uma valiosa chave de leitura para compreender que a tecnologia deve permanecer sempre a serviço da pessoa humana, do bem comum e do anúncio do Evangelho.

O ponto de partida dessa jornada estabelece um paralelo tão geográfico quanto espiritual. Se os nossos antepassados na fé cruzavam a geografia física e árida da Palestina em busca do encontro face a face e da primazia das relações interpessoais, o tempo presente nos transportou para o cenário hiperconectado do Vale do Silício. Neste novo território, governado por algoritmos invisíveis, inteligências artificiais e processos inteligentes, a humanidade é severamente desafiada a manter sua integridade espiritual e a autenticidade de seus vínculos, diante do avanço avassalador da virtualidade.

Diante desse cenário surpreendente e desafiador, a obra faz uma convocação urgente e corajosa a formadores de opinião, líderes comunitários, educadores e pastores. O texto clama pelo resgate imediato da herança do pensamento crítico, aquela mesma resistência intelectual que fundamentou o Ocidente, a partir do tripé da revelação judaico-cristã, do direito romano e da lógica aristotélica. O argumento central que norteia toda a narrativa é revelar que a técnica pode ampliar as capacidades humanas e facilitar o cotidiano, mas nunca terá o poder de substituir o sujeito espiritual e moral. O humano não desaparece diante do progresso tecnológico; ele precisa, na verdade, reaprender a reconhecer-se em sua própria profundidade.

Ao final, a Fé na Era dos Algoritmos consolida-se como um farol para os tempos modernos, oferecendo a sacerdotes, religiosos, leigos e a qualquer mente inquieta algumas ferramentas conceituais necessárias para que a tecnologia ocupe o seu devido lugar. Ela deve ser um espelho da criatividade humana e um canal dinâmico para o anúncio do Evangelho, jamais um substituto para a ação invisível, soberana e livre do Espírito Santo. Degustar esta obra, meditando item, capítulo por capítulo, ou item por item é, portanto, munir-se da sabedoria necessária para acolher a contemporaneidade sem relativizar o sagrado que habita em nós, garantindo que o progresso tecnológico seja, antes de tudo e fundamentalmente, um progresso em humanidade que pode ajudar na experiência cristã de Deus, sabendo bem usá-lo. O algoritmo é um exímio parceiro para nos ajudar a caminhar como imagem e semelhança de Deus.

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Rodrigo Samy

Rodrigo Samy

Jornalista e assessor de imprensa com 25+ anos de experiência. Passagens por Estadão, WebMotors, Yamaha e Mitsubishi, além de atendimento a marcas como Jeep, Goodyear e SulAmérica. Fundador do Electric News, portal focado em mobilidade elétrica e transição energética.

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