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Legislação

Por que jogar fora energia limpa e acionar termelétricas?

Leilão de Transmissão coloca R$ 8,9 bilhões em jogo para a melhoria energética do Brasil
Por que jogar fora energia limpa e acionar termelétricas?

Por que jogar fora energia limpa e acionar termelétricas? A pergunta direta é sobre o avanço das fontes renováveis, que, mesmo sendo produzidas, trazem um desafio para os sistemas. Afinal, a eletricidade precisa chegar aos locais de consumo no momento em que a população e as empresas precisam dela.

Na Grã-Bretanha, esse problema levou o operador do sistema elétrico a gastar £ 47,9 milhões (algo perto de R$ 320,8 milhões) em um único dia para equilibrar a rede. O valor registrado incluiu pagamentos para interromper a geração em parques eólicos e hidrelétricas em regiões com excesso de oferta para acionar usinas a gás em áreas com menor disponibilidade de energia.

O episódio evidencia uma dificuldade da transição energética: a expansão das fontes renováveis exige investimentos compatíveis em linhas de transmissão, armazenamento e flexibilidade operacional. Sem essa infraestrutura, parte da energia disponível pode não chegar ao consumidor, mesmo quando outras regiões precisam de eletricidade.

Por que a energia eólica e solar é cortada?

O corte forçado de geração, conhecido pelo termo em inglês curtailment, ocorre quando o operador determina que uma usina reduza ou interrompa a produção por razões operacionais.

Uma das causas é a limitação da rede de transmissão. Regiões com grande concentração de parques eólicos ou solares podem produzir mais eletricidade do que a infraestrutura consegue transportar para outros centros de consumo.

Outra situação ocorre quando a geração supera a demanda em determinados horários. Em períodos de muito sol ou vento, a oferta pode ultrapassar a necessidade do sistema e exigir ajustes para manter o equilíbrio entre produção e consumo.

Nesses casos, o operador reduz a geração de algumas usinas. Em outra região, porém, pode ser necessário acionar uma termelétrica para atender à demanda local ou compensar as limitações de transporte da rede.

Isso não significa necessariamente que o país tenha falta de energia no conjunto. O problema pode estar na localização da geração, na capacidade das linhas e no momento em que a eletricidade está disponível.

Como acontece no Brasil?

O Brasil enfrenta dificuldades semelhantes com o crescimento da geração eólica e solar, especialmente em regiões que concentram grandes empreendimentos renováveis.

Um levantamento da BloombergNEF apontou que a capacidade instalada em novas usinas renováveis no país caiu de 24 gigawatts (GW), em 2024, para 17 GW, em 2025, uma retração de 27%. O relatório relaciona o cenário, entre outros fatores, aos cortes de geração, à infraestrutura insuficiente e às incertezas sobre a compensação dos empreendedores.

Os cortes afetam a operação das usinas e a receita dos geradores. Quando os empreendedores não conseguem produzir toda a energia prevista, a rentabilidade dos projetos pode diminuir, o que influencia decisões sobre novos investimentos.

O problema também coloca em discussão o planejamento do setor elétrico. A expansão da capacidade de geração precisa acompanhar a construção de linhas de transmissão e a implantação de soluções capazes de absorver os excedentes de produção.

Armazenamento e transmissão estão entre as soluções

Uma das alternativas para reduzir os cortes é ampliar a capacidade de armazenamento. Sistemas de baterias podem guardar parte da eletricidade produzida em momentos de excesso e disponibilizá-la posteriormente, quando a demanda aumenta ou a geração renovável diminui.

A solução, entretanto, depende de fatores como custo dos equipamentos, localização dos projetos, capacidade de conexão à rede e regras de remuneração.

A expansão da transmissão também é fundamental. Linhas de alta tensão permitem transportar eletricidade entre regiões, reduzindo as limitações que impedem o aproveitamento de toda a geração disponível.

Na Grã-Bretanha, o operador atribuiu parte dos custos recentes aos gargalos da infraestrutura, que não acompanha o ritmo de conexão de novos projetos renováveis. A ampliação das redes elétricas do país envolve um programa de investimentos de £ 150 bilhões.

Aneel estabelece novas regras para os cortes

No Brasil, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou, em 6 de outubro, uma regulamentação para organizar a ordem dos cortes obrigatórios de geração. A medida busca estabelecer critérios mais transparentes e previsíveis para o curtailment em situações de sobreoferta de energia.

A nova regra prevê o compartilhamento progressivo dos cortes entre diferentes fontes de geração. No caso da geração hidrelétrica associada à energia vertida turbinável, a participação será introduzida ao longo de quatro anos, em etapas de 25%, 50%, 75% e 100% da parcela prevista no modelo final.

A regulamentação busca organizar a operação do sistema, mas o desafio vai além das regras. O país também precisa ampliar a infraestrutura, desenvolver soluções de armazenamento e criar condições para que os investimentos em geração renovável continuem avançando.

O desafio é aproveitar a energia disponível

O avanço da energia solar e eólica modifica as necessidades de operação dos sistemas elétricos. Além de construir usinas, os países precisam garantir que a rede consiga transportar a produção e que existam recursos para equilibrar a oferta e a demanda.

O caso britânico mostra como os gargalos de transmissão podem gerar custos elevados, mesmo quando existe capacidade de geração suficiente. No Brasil, os cortes de energia renovável e as discussões regulatórias indicam que o aproveitamento da eletricidade disponível será um dos desafios para a próxima etapa da transição energética.

Rodrigo Samy

Rodrigo Samy

Jornalista e assessor de imprensa com 25+ anos de experiência. Passagens por Estadão, WebMotors, Yamaha e Mitsubishi, além de atendimento a marcas como Jeep, Goodyear e SulAmérica. Fundador do Electric News, portal focado em mobilidade elétrica e transição energética.

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