Organizações cristãs pedem à Europa transição energética justa

Por ocasião do início da Presidência irlandesa do Conselho da União Europeia, mais de 170 organizações religiosas, representando mais de 33 milhões de cidadãos europeus, lançaram um apelo formal para que os grandes poluidores paguem pelos danos causados e para que a UE avance rumo a uma transição justa e rápida para além dos combustíveis fósseis.

A iniciativa, batizada “Europa, seja fiel à nossa Casa comum”, reúne uma coalizão ampla e transversal do mundo católico e cristão europeu, entre elas a Aliança Europeia das Organizações de Mulheres Católicas (Andante), o Comitê Central dos Católicos Alemães (ZdK), o Movimento Laudato Si’, a Caritas Europa, a Cidse, a Jesc, Justiça e Paz Europa, a Pax Christi International, a Conferência Internacional do Escotismo Católico, a Trócaire, a Christian Aid Ireland, a Acli, a Action Catholic e a Focsiv.

Quatro pedidos ao novo orçamento europeu

De olho na abertura das negociações sobre o novo Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia, o grupo apresenta quatro pedidos centrais: a eliminação gradual, rápida e justa dos combustíveis fósseis; a criação de uma taxa permanente sobre os lucros extraordinários das empresas de petróleo e gás para financiar a transição energética; investimentos maciços em energia limpa, eficiência energética e eletrificação, com respeito aos direitos das populações indígenas e das comunidades locais; e a inclusão estrutural do financiamento climático no orçamento da UE.

O apelo também exige que todos os projetos energéticos, atuais e futuros, sejam avaliados em conjunto com as comunidades mais afetadas, respeitando o direito delas de bloquear iniciativas, além do reconhecimento formal da dívida ecológica ligada ao impacto dos combustíveis fósseis e da obrigação de restaurar áreas degradadas pela exploração de petróleo, gás e carvão.

Lucros bilionários em meio a ondas de calor

O documento vem acompanhado de números que as organizações classificam como alarmantes. Segundo os dados apresentados, as seis maiores empresas europeias de petróleo e gás somaram lucros de US$ 22 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2026, o valor trimestral mais alto desde 2022. Um estudo da Global Witness estima ainda que as emissões ligadas à produção das petroleiras da UE, à luz do Acordo de Paris, poderão causar cerca de US$ 1,5 trilhão em prejuízos climáticos globais.

A diretora executiva do Movimento Laudato Si’, Lorna Gold, relacionou esses números às ondas de calor que já atingem a Europa e afirmou que o problema tende a piorar caso não seja controlado. Ela ponderou, porém, que existem soluções possíveis, desde que os políticos escolham o caminho da coragem e do bem comum.

A mobilização das organizações religiosas ocorre num contexto de crise de preços e de tensões no Oriente Médio, que expuseram os riscos da dependência energética. Muitas nações europeias ainda obtêm entre 75% e 90% de sua matriz de fontes fósseis.

Parte de um movimento internacional mais amplo

O apelo não é um episódio isolado. Ele se insere numa reflexão teológica católica mais ampla, ligada a uma iniciativa internacional conhecida como Tratado sobre Combustíveis Fósseis (TCF), que também conta com apoio do Movimento Laudato Si’, da CAFOD (Agência Católica para o Desenvolvimento Ultramarino), da CIDSE (Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e a Solidariedade), da Caritas International e dos Jesuítas.

O pano de fundo: quase 30 anos de negociações

A discussão remonta a uma moratória de 1997 sobre novas explorações de combustíveis fósseis, proposta originalmente por um grupo de organizações não governamentais numa cúpula do clima em Kyoto. Passadas quase três décadas, o tema voltou à mesa em 24 de abril, quando a cidade colombiana de Santa Marta sediou a I Conferência Internacional para a Transição de Combustíveis Fósseis, organizada pela Colômbia e pelos Países Baixos.

O encontro respondeu à necessidade de avançar diante de outras cúpulas climáticas estagnadas, como a COP30, realizada em Belém em novembro do ano anterior, que terminou sem qualquer referência explícita à “transitioning away” dos combustíveis fósseis, compromisso que havia sido um dos resultados históricos da COP28, em Dubai.

Em Santa Marta, os países presentes decidiram organizar uma II Conferência em 2027, com Tuvalu e Irlanda como coorganizadores, e criaram um grupo de coordenação formado por países líderes das principais alianças climáticas e pelos anfitriões das duas edições, em articulação com o Grupo de Ativação da COP30. O encontro também marcou o nascimento do Painel Científico para a Transição Energética Global (Spget), criado para ajudar os países a superar obstáculos legais, financeiros e políticos rumo à meta de conter o aquecimento global em 1,5°C.

Vatican News

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