Petróleo entre guerra e transição: até onde vão os preços? A escalada das tensões geopolíticas e os impactos no mercado de energia voltaram a acender o alerta global sobre segurança energética. Em março deste ano, os preços do petróleo ultrapassaram a marca de US$ 119 por barril, níveis não observados desde 2022, e impulsionados principalmente pela intensificação do conflito no Oriente Médio e pelo risco de interrupções no Estreito de Ormuz.
O barril acumula alta próxima de 50% no ano, refletindo uma combinação de choques de oferta, ataques a infraestruturas energéticas e restrições logísticas, o que tem elevado a volatilidade dos mercados e reacendido temores de inflação global e desaceleração econômica.
Segundo Beatriz Papoti, Venture Analyst da Plug and Play Brazil, a atual conjuntura, como a dependência de poucos fornecedores, pode gerar impacto econômico negativo. “Quando há instabilidade política em regiões-chave, como no Oriente Médio, o impacto no preço do petróleo é quase imediato. Isso mostra o quanto a dependência energética pode se tornar um risco para as economias”, afirma.
“Quando o petróleo sobe, isso se reflete no transporte, na indústria e na produção de alimentos, por exemplo. Em países muito dependentes de importação de combustíveis, qualquer instabilidade geopolítica pode pressionar custos, afetar o abastecimento e gerar impactos diretos na atividade econômica”, explica Beatriz.
Brasil ganha destaque no cenário de energia renovável
No debate global sobre segurança energética, o Brasil aparece como um dos países com maior potencial para ampliar a produção de energia limpa. A matriz energética brasileira já conta com forte presença de fontes renováveis, como hidrelétrica, solar e eólica, que responderam por cerca de 90% da eletricidade gerada no país em 2025, segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).
Para a executiva, entre as oportunidades que ganham força nesse contexto está o hidrogênio verde, combustível produzido a partir de fontes renováveis e considerado uma das apostas para a descarbonização da economia global. A abundância de energia limpa no país pode reduzir custos de produção e ampliar o potencial de exportação.
“Investidores europeus já estão olhando para o Brasil como um possível hub de produção de hidrogênio. O custo de geração de energia renovável aqui é competitivo, o que pode tornar o país um grande fornecedor global desse combustível no futuro”, diz.
Etanol gera economia superior a R$ 2,5 bilhões em março de 2026
Em meio à volatilidade do petróleo no mercado internacional, o etanol atuou como um importante amortecedor de preços no Brasil em março. Enquanto a gasolina subiu nas bombas, o biocombustível se manteve estável, protegendo o consumidor e gerando uma economia estimada superior a R$ 2,5 bilhões no período.
Desde o início de março, a gasolina acompanhou a escalada do petróleo, passando de R$ 6,30 para R$ 6,78 por litro. No mesmo período, o etanol hidratado variou de R$ 4,61 para R$ 4,70 por litro, mantendo-se competitivo.
Além de conter preços, o etanol também reduziu a necessidade de importação de gasolina. Sem a oferta do biocombustível, o Brasil teria que importar cerca de 2,3 bilhões de litros apenas em março, o que representaria um custo adicional superior a R$ 2,2 bilhões ao País.
Na avaliação da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia, essas iniciativas permitiram ao setor chegar a 2026 com capacidade produtiva ampliada e uma safra recorde em curso.
“O consumidor brasileiro foi protegido em março porque há décadas o país faz escolhas estratégicas em sua política energética. O etanol não acompanhou a alta da gasolina — e isso é resultado de políticas públicas consistentes e de uma cadeia produtiva robusta, preparada para momentos de maior volatilidade internacional”, afirma o presidente-executivo da UNICA, Evandro Gussi.
Preço do diesel dá trégua em abril após subir 22% desde conflito EUA-Irã
Recentemente, o avanço expressivo dos preços dos combustíveis, especialmente do diesel S-10, colocou o país em estado de apreensão. De acordo com os dados do Monitor de Preços de Combustíveis da Veloe, produzidos com apoio técnico da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), o preço acumulou alta de 22,1% entre a última semana de fevereiro e a segunda semana de abril.
O levantamento revela que o diesel avançou mais que os preços da gasolina comum (+7,5%) e o etanol (+1,9%) no período, marcado pelo acirramento e, mais recentemente, por impasses na resolução do conflito no Oriente Médio.
Evolução semanal dos preços nacional do Diesel S-10, Etanol e Gasolina Comum
A alta nos preços nacionais do combustível foi capitaneada por: Bahia (+33,2%), Paraná (+26,2), Maranhão (+25,9%), Piauí (+25,8%) e Tocantins (+25,9%). As menores altas, por sua vez, ocorreram no Norte do país: Acre (+10,8%), Amazonas (+11,3%), Amapá (+14,4%) e Roraima (+14,9%).
Os resultados das últimas duas semanas, contudo, apontam para uma trégua na alta dos preços dos combustíveis, dialogando com anúncios de cessar-fogo e negociações em curto entre os países envolvidos no conflito internacional.
O preço do diesel atingiu na última semana de março (R$ 7,62 por litro) e, desde então, registrou leve recuo nacional, para R$ 7,55. Os sinais de estabilização também foram observados nos demais combustíveis monitorados. Ou seja, o etanol hidratado atingiu seu maior preço na última semana de março (R$ 4,80 por litro), enquanto o da gasolina, R$ 6,87.
Valores dos combustíveis por Estado
O Acre lidera o ranking dos maiores preços desse combustível, com o litro cotado a R$ 8,68. O estado nortista foi seguido pela Bahia, a R$ 8,15, e Roraima, a R$ 7,87. Na sequência aparecem Piauí, Mato Grosso e Pará, todos com preços acima do patamar de R$ 7,70 por litro. Em contrapartida, os menores preços por litro na segunda semana de abril: Espírito Santo (R$ 7,23), Rio Grande do Sul (R$ 7,24), Ceará (R$ 7,25), Distrito Federal (R$ 7,25) e Pernambuco (R$ 7,26).
Apesar da acomodação, o cenário ainda pode trazer pressões para os demais preços da economia e, consequentemente, para o consumidor final. A dúvida agora é se os sinais de trégua, nos preços e no conflito, vão se consolidar ou se novos aumentos virão.




