Falta energia aos elétricos. Oferta reduzida de eletricidade e de pontos de recarga dificultam popularização da tecnologia. Em 2014, após a eliminação do Brasil na Copa do Mundo, resolvi desenvolver essa matéria. A eletrificação estava nascendo, no País, e o mundo de lá para cá se transformou em outro. Como grau comparativo, vou me autoplagiar e republicar a matéria. Porém, irei comentar no final o que se tornou verdade. Caso queira ver a publicação original, é só esbarrar no link e abrir o PDF. Espero que a iniciativa te faça repensar naquilo que éramos e no que iremos ser.
Falta energia aos elétricos: oferta reduzida de eletricidade e de pontos de recarga dificultam popularização da tecnologia
Outubro de 2014 – A BMW acaba de lançar o elétrico i3 no Brasil. No ano que vem, chega a versão do Renault Fluence movida a eletricidade. A grande questão é: será que o País tem estrutura para atender os proprietários desses carros?
De acordo com o diretor do comitê de Veículos Elétricos e Híbridos do congresso SAE Brasil, Ricardo Takahira, o Brasil ainda não está preparado para esses veículos. Um dos motivos apontados pelo engenheiro é o reduzido número de estações de recarga. “Em Paris, assim como na Califórnia (EUA), por exemplo, os pontos estão disponíveis em locais públicos.”
Por ora, há pequenas iniciativas para ampliar a oferta do serviço, como em postos no Rio de Janeiro e no Shopping Villa Lobos, em São Paulo. Outra questão a ser resolvida é a dependência do País em relação à eletricidade gerada por recursos hídricos. “Se não houvesse escassez em momentos de seca, talvez a história fosse diferente”, diz Takahira.
Entre os entraves para a chegada em massa dos elétricos está a mistura do etanol na gasolina vendida no Brasil. “O álcool gera menores índices de emissões de CO₂, principalmente se comparado com a gasolina. Esse coquetel deixa os carros do País em dia com as normas ambientais”, diz o engenheiro.
Presidente do conselho e diretor da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE), Ricardo Guggisberg estima que, em 2020, 3 milhões de veículos desse tipo estarão circulando no mundo.
No Brasil, assim como ocorre no exterior, é preciso que haja incentivos para a popularização dos elétricos. Um “empurrão” seria a obrigatoriedade de haver pontos de recarga em áreas públicas no País. O projeto está no Senado. Nos Estados Unidos, há terminais alimentados por energias alternativas, como a solar, para recarregar as baterias de veículos elétricos.
Falta energia aos elétricos: versão 2026
A chegada de modelos como o BMW i3, há pouco mais de uma década, levantava uma dúvida central: o Brasil teria estrutura para sustentar a eletrificação da mobilidade? Hoje, a pergunta mudou de natureza. O País não apenas entrou na rota da eletromobilidade como passou a experimentar um crescimento acelerado.
Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) indicam que o Brasil encerrou 2025 com mais de 223 mil veículos eletrificados vendidos no ano, um avanço expressivo em relação aos 93 mil registrados em 2023. No acumulado, a frota nacional já supera 600 mil veículos eletrificados em circulação, após um crescimento de quase 64% apenas entre 2024 e 2025.
Veículos elétricos já são 15% das vendas
Esse avanço também se reflete na participação de mercado. Em janeiro de 2026, os eletrificados já responderam por cerca de 15% das vendas de veículos leves no País, sendo que os modelos plug-in (elétricos e híbridos recarregáveis) atingiram pela primeira vez participação de dois dígitos. Se, no passado, o principal entrave era a ausência de infraestrutura, hoje o desafio passa a ser acompanhar o ritmo de expansão da demanda.
A rede de recarga cresceu e se diversificou, com eletropostos em rodovias, centros urbanos e estabelecimentos comerciais. Esse avanço ajudou a sustentar o aumento nas vendas, incluindo recordes mensais recentes. Ainda assim, a distribuição da infraestrutura permanece desigual, concentrada principalmente nas regiões Sudeste e Sul.
Matriz energética e dependência hídrica
Outro ponto que evoluiu diz respeito à matriz energética. A dependência hídrica, antes vista como um risco estrutural, passou a ser mitigada pela expansão das fontes solar e eólica. No entanto, o crescimento da frota elétrica introduz uma nova variável: o impacto da recarga simultânea sobre a rede, especialmente em horários de pico.
No campo tecnológico, o cenário também mudou. Se antes os veículos elétricos eram nicho, hoje convivem com uma ampla gama de soluções, incluindo híbridos convencionais, híbridos plug-in e modelos 100% elétricos. Essa diversificação explica por que os híbridos ainda predominam, enquanto os elétricos puros apresentam o maior ritmo de crescimento proporcional.
Chineses e híbridos deram uma nova cara
A entrada de novas montadoras, especialmente chinesas, acelerou esse processo. A ampliação da oferta e a redução relativa de preços contribuíram para popularizar os eletrificados, ao mesmo tempo em que pressionaram a indústria local e a cadeia de fornecedores.
No Brasil, o etanol segue como diferencial competitivo e elemento estratégico na transição energética. Em vez de perder relevância, passou a coexistir com a eletrificação, formando um modelo híbrido de descarbonização que combina biocombustíveis e eletricidade.
No campo regulatório, houve avanços, mas ainda de forma fragmentada. Incentivos fiscais, isenções locais e discussões sobre normas de instalação de carregadores indicam evolução, mas também revelam a necessidade de maior coordenação nacional.
Mais de dez anos depois, a questão central já não é se o Brasil está preparado para os veículos elétricos. O desafio agora é outro: garantir que infraestrutura, regulação e oferta de energia avancem na mesma velocidade que a eletrificação da frota.




