A abertura do mercado livre de energia no Brasil deve transformar a forma como empresas, e futuramente consumidores residenciais, compram eletricidade. De olho nesse movimento, a TYR Energia anunciou a aquisição da GreenAnt, empresa pioneira em software (SaaS) para eficiência energética. A operação amplia o portfólio tecnológico da companhia e reforça sua estratégia para a expansão do mercado livre, cuja abertura total está prevista para ocorrer gradualmente até 2028.
A digitalização do setor elétrico deve ser um dos principais vetores da expansão do mercado livre de energia no Brasil. Plataformas tecnológicas capazes de monitorar consumo, automatizar contratos e integrar dados de geração e demanda começam a ganhar espaço entre comercializadoras que buscam atender clientes menores, como comércios e pequenas empresas.
Digitalização e novos serviços devem marcar a próxima fase do mercado livre
O Electric News conversou com Pedro Bittencourt, CTO (Chief Technology Officer) da TYR Energia. Ele explicou a vantagem da fusão para as empresas, destacando que o modelo antecipa um futuro próximo, onde o brasileiro poderá escolher de que forma a energia utilizada será paga.
Ele usa um exemplo atual, do grupo Raiz, que reduziu o consumo das cinco unidades educacionais da rede em 48%. Parte dessa redução foi resultado da otimização de processos internos, como desligamento programado de equipamentos em horários de baixa ocupação. Isso representou uma economia na conta de energia de R$ 318.266,56 em março para R$ 228.438,03 em maio do ano passado.
“A GreenAnt sempre teve como missão fornecer soluções inovadoras e digitais de eficiência energética. Essa aquisição nos permite acelerar esse propósito em uma escala muito maior, pois a TYR possui, desde sempre, uma base enorme de clientes equipados com o hardware de medição e software da GreenAnt, possibilitando testarmos nossas tecnologias e seu potencial em escala.”, destaca Pedro Bittencourt.

Hoje restrito principalmente a grandes empresas, o modelo começa a se expandir para clientes menores, movimento que tem impulsionado o surgimento de novas comercializadoras e plataformas digitais voltadas para simplificar a experiência do usuário.
Em entrevista, o executivo da TYR, comercializadora varejista de energia, explica como funciona esse modelo. Quais são as mudanças previstas na legislação e como a tecnologia pode ajudar a tornar o acesso ao mercado livre mais simples para empresas e, no futuro, para consumidores residenciais.
O que é a TYR e qual o papel da empresa no mercado livre de energia?
A TYR é uma comercializadora varejista de energia focada no mercado livre. Essa é uma categoria relativamente nova no Brasil e acompanha a abertura do setor para consumidores cada vez menores.
Historicamente, o mercado livre nasceu voltado para grandes indústrias. Com o tempo, ele passou a se expandir e, a partir de 2024, foi criada a figura do comercializador varejista, que permite atender clientes menores.
Hoje, a nossa empresa é uma das comercializadoras independentes que atuam nesse modelo. A empresa também tem uma trajetória ligada à área de tecnologia para o setor elétrico.
Como surgiu a integração entre a TYR e a empresa de tecnologia GreenAnt?
A GreenAnt foi fundada em 2015 com foco em tecnologia para o mercado de energia. Na época, ela fornecia sistemas de monitoramento, faturamento e gestão para diversas comercializadoras, inclusive para a própria TYR.
Em 2026, a unificação combinou conhecimento do mercado de energia com soluções tecnológicas próprias. Com isso, a empresa passa a controlar toda a jornada do cliente, desde a contratação da energia até o monitoramento do consumo e a gestão dos pagamentos.
Qual é o principal desafio do mercado livre para clientes menores?
O principal desafio é a complexidade operacional. Quando um consumidor está no mercado cativo, aquele em que a energia é comprada diretamente da distribuidora, tudo vem em uma única conta. Já no mercado livre existem vários componentes separados, como:
- Tarifa de uso da rede de distribuição;
- Compra da energia;
- Tributos, como ICMS;
- Encargos do sistema elétrico.
Para grandes empresas, isso não costuma ser um problema, porque elas têm estrutura interna para lidar com essa gestão. Mas para clientes menores, como comércios ou pequenas empresas, essa complexidade pode se tornar um obstáculo. No caso da TYR, a proposta é concentrar todas as cobranças em um único boleto e disponibilizar ferramentas que permitem ao cliente acompanhar o consumo em tempo real, visualizar os contratos, monitorar gastos de energia e acessar o histórico de pagamentos. A complexidade do mercado livre fica “por trás” da plataforma.
O cliente deixa de ter relação com a distribuidora ao migrar para o mercado livre?
Não. A distribuidora continua sendo responsável pela infraestrutura elétrica. Empresas concessionárias seguem operando a rede de distribuição e garantindo o fornecimento físico da energia. A diferença é que o consumidor deixa de comprar energia da distribuidora e passa a adquiri-la de uma comercializadora no mercado livre.
Como funciona o cronograma de abertura do mercado livre no Brasil?
O Brasil já definiu um cronograma de abertura gradual do mercado. Até o fim de 2027, consumidores comerciais de baixa tensão poderão migrar para o mercado livre. A partir de 2028, a abertura deve incluir também consumidores residenciais. Hoje, o acesso ainda está restrito principalmente a clientes de média tensão, empresas que normalmente têm contas de energia superiores a cerca de R$ 10 mil por mês.
Quantas comercializadoras varejistas existem hoje?
O número ainda é relativamente pequeno. Atualmente existem perto de 60 comercializadoras de energia no Brasil, mas apenas cerca de 40 atuam no modelo varejista. Com a abertura do mercado para milhões de consumidores, a expectativa é que esse número cresça rapidamente e atraia novos participantes.
Como será a competição entre as empresas nesse novo mercado?
Energia elétrica é essencialmente uma commodity, o que significa que as diferenças de preço entre fornecedores tendem a ser limitadas. Por isso, a competição deve ocorrer principalmente em outros fatores, como:
- Qualidade do atendimento;
- Serviços adicionais;
- Ferramentas de gestão de consumo;
- Pacotes de energia sob medida para suas necessidades.
O modelo pode se aproximar do que ocorre no setor de telecomunicações, em que diferentes empresas oferecem combinações de serviços e benefícios para atrair clientes. Entre eles:
- Consultoria para eficiência energética;
- Monitoramento do consumo;
- Apoio na troca de equipamentos mais eficientes;
- Soluções tecnológicas de gestão de energia.
Por fim, a abertura do mercado livre é considerada uma das mudanças mais relevantes do setor elétrico brasileiro nas próximas décadas. Com a entrada gradual de consumidores de menor porte, especialistas avaliam, por exemplo, que o segmento pode se aproximar de modelos já consolidados em mercados mais maduros, nos quais a energia funciona como uma plataforma de serviços. Ou seja, que inclui eficiência energética, gestão de consumo e soluções digitais.
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