A Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA) lançou o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, uma radiografia da geração e gestão de resíduos sólidos urbanos (RSU) no país. A edição traz novidades sobre a reciclagem no país e uma inédita análise sobre reaproveitamento bioenergético de resíduos orgânicos coletados.
Em 2024, por exemplo, ano de análise do estudo, do total de resíduos gerados no Brasil, 11,7% foram reaproveitados para geração de insumos energéticos, o que mostra que o Brasil tem potencial para expandir. Com isso, a população brasileira gerou 81,6 milhões de toneladas de RSU, quantidade 0,75% maior que a registrada no ano anterior. O número representa uma média de 384 quilos de lixo gerados por pessoa ao longo do ano, um quilo por dia.
Brasil poderia reaproveitar melhor os resíduos
Outro dado importante é que em 2024, 6,57 milhões de toneladas de resíduos orgânicos foram utilizados na geração de eletricidade, principalmente a partir do reaproveitamento do biogás gerado naturalmente pela decomposição do material. O número representa 8% do total de resíduos produzidos no período.
Outros 2,6 milhões de toneladas, 3,2% do total gerado, foram usadas para produção do biometano, combustível limpo e renovável que pode ser um dos principais ativos globais para a transição para uma economia de baixo carbono. O biometano pode substituir combustíveis fósseis no abastecimento veicular, processos industriais, utilização residencial e até ser utilizado como insumo para cogeração de energia elétrica.
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No entanto, se todas as cidades com mais de 320 mil habitantes destinassem seus resíduos para aterros sanitários com planta de biometano, poderíamos alcançar uma produção diária de, no mínimo, 2,86 milhões de Nm³/dia, volume 525,45% superior à capacidade autorizada atual.
Com o melhor aproveitamento da estrutura já existente, o Brasil teria capacidade para suprir cerca de 5% da atual demanda nacional por gás natural, hoje estimada em 58,4 milhões de Nm³/dia pelo Ministério de Minas e Energia (MME).
“Os dados mostram o quanto o Brasil ainda tem espaço para aumentar a geração de energia sustentável. Cada aterro sanitário é como um poço de petróleo verde e ecológico, com quantidades inesgotáveis para geração do que já é chamado como combustível do futuro. O Brasil pode ser para a geração de energia sustentável o que a Arábia Saudita é hoje para o combustível fóssil”, declara Pedro Maranhão, presidente da ABREMA.
O país coleta 93,7% dos resíduos produzidos, mas ainda destina 28,1 milhões de toneladas para lixões e outros destinos ambientalmente inadequados, 40,3% do total. Em 2024, 41,6 milhões de resíduos coletados (59,7%) foram enviados corretamente para aterros sanitários, locais com instalações adequadas para a reciclagem bioenergética de orgânicos.
Ou seja, houve leve melhora em relação aos percentuais observados no ano anterior, quando 41% dos resíduos coletados iam para lixões e 58,5% para aterros sanitários, o equivalente a quase 1 milhão de toneladas a mais encaminhadas para a disposição adequada.
No ano analisado, 85,6% dos resíduos gerados foram enviados para alguma forma de destinação final, seja adequada, como aterros sanitários licenciados, ou inadequadas, como aterros controlados, valas sanitários e lixões ao ar livre, instalações que estão totalmente proibidas no Brasil desde agosto de 2024.
“No ano em que o Brasil proibiu todas as formas de destinação irregular dos resíduos coletados nos municípios, ainda estimamos a existência de quase 3 mil lixões que recebem passivos ambientais que colocam a saúde pública em risco, mas que poderiam se tornar ativos econômicos para o país”, pontua Maranhão.
Embora os resultados tenham melhorado timidamente em todas as regiões, a distribuição de destinos regulares e irregulares para o lixo coletado segue refletindo a desigualdade econômica brasileira, com as regiões Sudeste e Sul apresentando os melhores indicadores. Nessas áreas, os aterros sanitários são o destino de 71,3% e 69% dos resíduos encaminhados para disposição final, respectivamente. As outras regiões ficaram com desempenho abaixo da média nacional, com o pior resultado observado na região Norte, onde os aterros sanitários foram o destino de somente 38,7% dos resíduos recolhidos.
Reciclagem tradicional: trabalho informal predominante
A reciclagem mecânica de resíduos secos, principalmente metais, papeis, vidros e plásticos, avançou timidamente em um ano. Em 2024, 7,1 milhões de toneladas desses resíduos foram efetivamente recicladas, o que representa 8,7% do total gerado no Brasil. O índice é 0,4 ponto percentual superior ao registrado em 2023.
Do total enviado para reciclagem, 4,6 milhões de toneladas (64,8% do total) foram coletadas por trabalhadores informais e sem ligação com os serviços oficiais. Já 2,5 milhões (35,2%)são resultados do sistema de coleta seletiva dos municípios.

Queima de resíduos
Prática observada, sobretudo, em regiões rurais sem serviço regular de coleta, a queima de resíduos ainda é uma realidade em parte significativa do Brasil. Em 2024, cerca de 5,4% dos resíduos gerados, aproximadamente 4,4 milhões de toneladas, foram queimadas ao ar livre na mesma propriedade de sua geração ou ambientes próximos. Em 2023, esse índice havia sido de 5,7% na mesma base de comparação.
A prática é ilegal, mesmo em pequenas quantidades, e pode impactar negativamente o meio ambiente e a saúde de pessoas submetidas à fumaça tóxica. Além do risco de incêndios, a queima irregular de lixo doméstico também contamina o solo e os lençóis freáticos durante a decomposição dos resíduos, e possibilita a proliferação de animais e insetos vetores de doenças.





