Os Pequenos Reatores Modulares (SMRs) estão deixando de ser uma promessa tecnológica para ser uma das principais apostas do mercado. É o que mostra o relatório SMR Market Intelligence Report 2027, da Nuclear Intelligence Brief, que identifica uma mudança estrutural no setor nuclear, marcada pela entrada massiva de capital privado, especialmente de empresas de tecnologia interessadas em garantir suprimento energético confiável para data centers e aplicações de Inteligência Artificial (IA).
Big Techs aceleram a corrida pelos SMRs
Segundo o estudo, a combinação entre metas de descarbonização, segurança energética e crescimento exponencial da demanda elétrica dos centros de processamento de dados está acelerando investimentos em projetos nucleares avançados. Gigantes como Google, Amazon, Microsoft e Meta já figuram entre os principais apoiadores financeiros dessa nova fase do mercado.
A expectativa é que o segmento global de SMRs mais do que dobre de tamanho nos próximos anos, impulsionado tanto pela geração de eletricidade quanto por aplicações industriais, especialmente no fornecimento de calor de processo para setores de difícil descarbonização, como siderurgia, mineração, química e fertilizantes.
Brasil tem potencial para ocupar posição estratégica
Para o presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), Celso Cunha, o relatório reforça uma tendência que já vem sendo observada em diversos países.
“O mercado internacional está demonstrando que os SMRs deixaram de ser apenas projetos conceituais e passaram a integrar estratégias concretas de expansão energética. O avanço simultâneo dos investimentos privados, dos processos regulatórios e da demanda por energia firme indica que estamos diante de uma nova etapa da indústria nuclear mundial”, afirma.
Projetos avançam e consolidam nova fase da energia nuclear
O documento destaca que um dos principais diferenciais dos SMRs está na modularidade e na possibilidade de fabricação seriada de componentes. Ele também reduz prazos de implantação e aumenta a previsibilidade dos projetos. Enquanto grandes usinas nucleares podem demandar mais de uma década entre planejamento e operação, os SMRs trabalham com janelas estimadas entre três e cinco anos para construção.
Outro fator apontado pelo relatório é a elevada densidade energética da tecnologia. Um único complexo de SMRs ocupa uma área significativamente menor do que projetos equivalentes. Na avaliação de Celso Cunha, o crescimento abre oportunidades importantes para países que tem domínio do combustível nuclear.
“O Brasil reúne condições únicas para participar dessa nova fase da energia nuclear. Temos reservas expressivas de urânio, capacidade industrial instalada, experiência operacional e um dos sistemas elétricos mais limpos do mundo. Os SMRs podem ampliar ainda mais esse potencial, principalmente em aplicações industriais e no atendimento de novas demandas energéticas”, destaca.
Desafios permanecem
Apesar do cenário positivo, o estudo alerta que a expansão dos SMRs ainda enfrenta desafios relevantes. Entre eles estão o elevado custo de capital dos primeiros projetos comerciais e a necessidade de modelos regulatórios para disponibilidade de combustível nuclear avançado.
O relatório identifica o abastecimento de HALEU (High-Assay Low-Enriched Uranium) como um dos principais gargalos globais para reatores de nova geração. Atualmente, a capacidade de produção desse combustível ainda é limitada, especialmente nos países ocidentais, o que pode influenciar cronogramas de implantação nos próximos anos. Mesmo assim, os analistas apontam que o movimento de mercado já atingiu um estágio de maturidade.
“O que observamos é uma convergência inédita entre transição energética, segurança de suprimento, competitividade industrial e transformação digital. Os SMRs estão surgindo exatamente no ponto de encontro dessas demandas, o que explica o crescente interesse de governos, investidores e grandes consumidores de energia em todo o mundo”, conclui Celso Cunha.
Por fim, o relatório também destaca avanços recentes em países como Canadá, Estados Unidos e Reino Unido. Lá, projetos comerciais já avançam para fases de construção e licenciamento.




