O negócio de R$ 57 bilhões que está surgindo no Brasil

Sistemas de megabaterias será inaugurado em São Paulo

O desenvolvimento do mercado brasileiro de armazenamento de energia poderá atrair mais de R$ 57 bilhões em investimentos nos próximos dez anos, conforme estimativa feita pela Deloitte no relatório “Sistemas de Armazenamento: Desafios, oportunidades e perspectivas para o Setor Elétrico Brasileiro”.

Essa projeção foi calculada a partir de dados do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2035), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). A metodologia é da própria Deloitte, que considera a evolução da capacidade instalada de sistema de armazenamento e a necessidade futura de contratação.

Leilões previstos pedem disponibilidade de potência

No início de junho, o Ministério de Minas e Energia publicou portaria normativa com as diretrizes e a sistemática para a realização de dois leilões de armazenamento de energia, em dezembro, passo fundamental para destravar esse potencial estimado pela Deloitte. Os leilões previstos têm como objetivo contratar disponibilidade de potência, em megawatts (MW), a partir de novos sistemas de armazenamento em baterias eletroquímicas. O movimento acompanha a transformação do setor, marcada pela expansão acelerada de fontes renováveis, como solar e eólica. Nesse contexto, o armazenamento torna-se essencial para momentos de pico de demanda ou baixa geração renovável.

“Os sistemas de armazenamento conferem flexibilidade, confiabilidade e resiliência ao sistema, atributos cada vez mais demandados diante do crescimento do pico de carga, da geração distribuída e da variabilidade das renováveis. Também oferecem maior previsibilidade de receita aos investidores e viabilizam uma integração mais eficiente de fontes como solar e eólica, podendo ampliar a participação de energia limpa na matriz e reduzir a exposição a volatilidades de preço”, explica Jovanio Santos, diretor de Strategy & Transactions dos setores de Power & Utilities da Deloitte.

 

Armazenamento saltou de 1 GW em 2013 para 85 GW

O panorama internacional reforça a necessidade de desenvolvimento do mercado brasileiro: a capacidade global de armazenamento por baterias saltou de cerca de 1 GW em 2013 para mais de 85 GW em 2023, com a adição de aproximadamente 40 GW apenas no último ano, mais que o dobro de 2022, segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês). Esse avanço foi liderado principalmente por China, Europa e Estados Unidos, responsáveis por cerca de 90% da capacidade instalada recentemente, conforme evidencia a análise dos dados da agência.

Esse cenário tem influenciado a evolução regulatória e os investimentos em diversos mercados, impulsionando a adoção de soluções de armazenamento como elemento estratégico. O Brasil começa a avançar na estruturação de seu mercado. Neste mês de junho, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) publicou a regulamentação dos Sistemas de Armazenamento de Energia, que alcança o regime de outorga, modelos de exploração da atividade, remuneração, empilhamento (stacking) de receitas e serviços, acesso e uso da rede e tratamento tarifário dos sistemas de armazenamento.

Estudo da Deloitte aponta aprimoramento do mercado

A regulamentação reconhece a possibilidade de sistemas de armazenamento prestarem serviços auxiliares, incluindo mecanismos associados ao suporte operacional do sistema elétrico e remuneração por múltiplos serviços, importante para viabilizar baterias comercialmente. Sem a regulamentação, muitos projetos enfrentavam dificuldades, como regras criadas para fontes convencionais, restrições à remuneração por múltiplos serviços e sinais de preço insuficientes, o que comprometia a viabilidade econômica.

O estudo da Deloitte aponta que o aprimoramento do mercado de serviços ancilares com produtos bem desenhados será determinante para desenvolver modelos de negócio e viabilizar investimentos. Há uma diversidade de soluções, e a adoção de boas práticas internacionais pode acelerar a evolução do mercado brasileiro.

Nesse contexto, o executivo da Deloitte ressalta a necessidade de as empresas que atuam no país se prepararem. “As organizações que pretendem capturar valor nesse mercado precisam começar desde já a estruturar seus portfólios de projetos e definir suas apostas tecnológicas, seja em sistemas de armazenamento por baterias (BESS), usinas hidrelétricas reversíveis ou soluções híbridas. Também é importante desenvolver modelos de negócio capazes de combinar diferentes fontes de receita, incluindo pagamento por capacidade, arbitragem de energia e serviços ancilares, além de estabelecer parcerias estratégicas, garantir acesso a financiamento e investir em digitalização e inteligência operacional”, conclui Jovanio Santos.

Tauil & Chequer aponta incertezas regulatórias para os primeiros leilões

O escritório Tauil & Chequer Advogados associado a Mayer Brown avalia que a definição da capacidade remanescente nos pontos de conexão ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e a falta de regulamentação do encargo que financiará os leilões são os principais pontos de atenção para investidores interessados nos primeiros leilões de sistemas de armazenamento por baterias (BESS) do país.

Segundo Débora Yanasse, sócia das práticas de Global Energy, Societário e Fusões & Aquisições do escritório, o cronograma estabelecido pelo governo pode afetar a competitividade e até a viabilidade econômico-financeira de alguns projetos, já que os investidores precisarão definir seus pontos de conexão antes da divulgação da capacidade remanescente da rede.

A especialista destaca que o cenário regulatório avançou com a aprovação da Lei nº 15.269/2025 e das recentes normas da ANEEL para sistemas de armazenamento. No entanto, ainda existe preocupação com a regulamentação do ERCAP, encargo que custeará os leilões, tema que pode gerar questionamentos e até judicialização.

Débora também afirma que o mercado vê potencial para contratação de até 6 GW nos certames de baterias, acima das expectativas iniciais. Ela considera positiva a ampliação do prazo dos contratos de 10 para 15 anos, medida que deve aumentar a competitividade e atrair investidores.

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