Escócia x Brasil: quem vence a disputa entre whisky e cachaça?

A Escócia, berço do whisky escocês, também se tornou referência em soluções de economia circular voltadas à transição energética. Um dos projetos mais inovadores surgiu na empresa Celtic Renewables, que desenvolveu uma tecnologia capaz de transformar resíduos da produção de whisky em biobutanol, combustível renovável que pode substituir gasolina e diesel sem necessidade de adaptações nos motores.

A matéria-prima utilizada no processo é formada principalmente por dois resíduos abundantes da indústria do whisky: o “draff”, resíduo sólido da cevada após a fermentação, e o “pot ale”, líquido remanescente da destilação. Por meio de um processo de fermentação conhecido como ABE (acetona-butanol-etanol), a empresa converte esses subprodutos em biobutanol, bioetanol e outros químicos renováveis.

O projeto ganhou notoriedade mundial em 2017, quando um automóvel realizou na Escócia o primeiro teste utilizando combustível produzido a partir de resíduos do whisky. O feito demonstrou a viabilidade técnica do biobutanol como alternativa imediata aos combustíveis fósseis. Hoje, a empresa opera uma biorrefinaria e planeja ampliar a capacidade.

Destilaria abastece caminhões com biogás de whisky

Outro exemplo vem da destilaria Glenfiddich, que em 2021 iniciou a conversão de sua frota logística para operar com biogás produzido a partir dos resíduos gerados em sua própria fabricação de whisky. A iniciativa faz parte de um sistema de economia circular em que os resíduos líquidos da destilação passam por biodigestão para gerar um combustível gasoso de baixas emissões. O biogás abastece caminhões adaptados que realizam o transporte de produtos da marca na Escócia. O projeto tornou-se um dos casos mais conhecidos de descarbonização da logística no setor de bebidas.

Os dois casos mostram como setores tradicionais podem desempenhar papel relevante na transição energética. Mais do que produzir uma bebida reconhecida globalmente, a indústria escocesa do whisky passou a demonstrar que resíduos agrícolas e industriais podem se transformar em combustíveis, energia e novas oportunidades de negócios sustentáveis.

Flexíveis em combustível

Na prática, quando um carro flex roda com etanol, ele está utilizando um combustível produzido a partir do mesmo açúcar da cana que poderia originar uma cachaça. Por isso, pode-se dizer que a diferença entre a bebida e o combustível não está no canavial, mas na refinaria e no destino final do produto.

Esse paralelo ajuda a explicar os projetos escoceses com whisky: o objetivo não é colocar a bebida no tanque, mas aproveitar a biomassa e os resíduos gerados durante sua produção para fabricar combustíveis adequados ao uso automotivo. No Brasil, a indústria sucroenergética já faz algo semelhante há décadas, transformando a cana em etanol, bioeletricidade, biogás e, mais recentemente, biometano.

Na produção de cachaça, o objetivo é criar uma bebida. Após a fermentação, o líquido passa por destilação e o produtor seleciona as frações mais adequadas para consumo humano. O resultado é uma bebida com teor alcoólico geralmente entre 38% e 48%, sendo o restante composto principalmente por água e compostos aromáticos responsáveis pelo sabor e pelo aroma. Ou seja, uma garrafa de cachaça contém muito menos álcool do que um combustível automotivo.

Produto final Origem principal Energia aproximada
Biobutanol (resíduos de whisky, milho, cana etc.) Biomassa 29 MJ/litro
Etanol combustível Cana, milho ou beterraba 21-24 MJ/litro
Vodka (40%) Geralmente cereais ou batata 8-10 MJ/litro
Whisky (40% a 46%) Cevada e outros grãos 8-11 MJ/litro
Cachaça/Pinga (38% a 48%) Cana-de-açúcar 8-11 MJ/litro
Cerveja (5%) Cevada Cerca de 1 MJ/litro

“Derramar cachaça em automóvel é a coisa mais sem graça que já ouvi falar”

O verso “Derramar cachaça em automóvel é a coisa mais sem graça” faz parte da música Movido a Álcool, composta por Raul Seixas e Cláudio Roberto e lançada no álbum Por Quem os Sinos Dobram, de 1979. A canção surgiu quando o Brasil vivia a expansão do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), em 1975. A ideia era estimular a produção de etanol a partir da cana-de-açúcar.

Raul transformou o tema em sátira. Na letra, o cantor questiona a destinação da cana para abastecer automóveis, sugerindo que ela estaria sendo retirada de um universo associado à bebida.

Mais do que uma referência ao Proálcool, Movido a Álcool reflete uma característica recorrente da obra de Raul Seixas: o questionamento das convenções sociais, das decisões burocráticas e da racionalidade excessiva, sempre em defesa da imaginação, da liberdade individual e do prazer cotidiano.

Ficha técnica

  • Música: Movido a Álcool
  • Compositores: Raul Seixas e Cláudio Roberto
  • Álbum: Por Quem os Sinos Dobram
  • Ano de lançamento: 1979

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