O avanço de um novo episódio de El Niño pode alterar a distribuição das chuvas no Brasil nos próximos meses. No Sudeste, o fenômeno pode favorecer períodos de maior instabilidade e chuva irregular, com alternância entre pancadas intensas e intervalos mais secos. O cenário ganha atenção com a aproximação da primavera, período em que as chuvas normalmente aumentam na região.
São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo podem registrar mudanças no regime de precipitação. Mas os efeitos do El Niño não são iguais em todo o Sudeste e dependem também da atuação de outros sistemas atmosféricos.
A atualização da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), divulgada em setembro, elevou ainda mais o sinal de alerta. Para o órgão norte-americano, há mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte durante a primavera e o verão de 2026-2027 e 75% de chance de que, entre outubro e dezembro, o episódio esteja entre os mais intensos registrados desde 1950.
A Organização Meteorológica Mundial afirma que o El Niño está estabelecido e deve continuar se fortalecendo, com probabilidade próxima de 100% de persistência até fevereiro de 2027. A entidade ressalta que um evento muito forte pode alterar significativamente padrões de chuva e temperatura e favorecer extremos meteorológicos.
Temperatura mais alta do planeta
Se para o consumidor há impactos no dia a dia, no mundo industrial o bicho também “pega”. Afinal, a discussão não se limita à meteorologia. Chuvas excessivas, alagamentos, vendavais, ondas de calor, incêndios e interrupções operacionais colocam à prova estruturas físicas e também a qualidade das informações que uma companhia mantém sobre o próprio patrimônio.
Segundo Fernando Mello, contador, empresário e CEO da Saraf Controle Patrimonial, uma das fragilidades está na distância que pode surgir, ao longo dos anos, entre a operação real, o controle patrimonial e os valores utilizados como referência para proteção dos ativos.
Ele sustenta que o El Niño, por exemplo, funciona como um teste para uma discussão maior, em que empresas investem milhões na modernização de fábricas, automatização de processos e expansão de capacidade, mas precisando manter a rastreabilidade da operação.
Calor e tempestades
Para garantir maior segurança e evitar apagões, as concessionárias de energia estão de olho na infraestrutura elétrica oferecida. Com a alta probabilidade de ocorrência do El Niño neste segundo semestre de 2026, o planejamento da rede ganhou ainda mais importância.
Períodos prolongados de calor estimulam o uso de aparelhos de ar-condicionado, sistemas de refrigeração e outros equipamentos elétricos, elevando a demanda justamente em horários de maior consumo. O resultado pode ser uma combinação de aumento de carga, maior estresse térmico sobre equipamentos e redução das margens disponíveis em determinados trechos da rede.
“Eventos climáticos extremos tornam ainda mais importante que as concessionárias trabalhem com novos cenários e não apenas com médias históricas. O planejamento precisa considerar como a rede irá responder a diferentes níveis de aumento de carga, quais ativos poderão se tornar gargalos e quais investimentos devem ser priorizados para manter a confiabilidade do fornecimento”, afirma João Moura, Engenheiro de Produto da Eaton.
Planejamento da infraestrutura
Ele acrescenta que a lógica também contribui para tornar os investimentos mais assertivos. Ou seja, em vez de atuar somente depois que um ativo apresenta sinais de sobrecarga ou uma interrupção acontece, a concessionária pode utilizar dados e modelos de planejamento para estabelecer prioridades, antecipar necessidades de expansão e definir estratégias de manutenção.
Para as concessionárias, isso significa incorporar variáveis climáticas ao planejamento da infraestrutura com uma perspectiva cada vez mais dinâmica. O objetivo não é simplesmente dimensionar a rede para o pico de consumo esperado, mas avaliar sua capacidade de responder a cenários que combinam temperaturas elevadas, mudanças no perfil de demanda e outros eventos que podem afetar a operação.
A resiliência, portanto, começa antes do período crítico. Ao simular cenários, identificar gargalos, monitorar ativos e direcionar investimentos com base em dados, as concessionárias podem aumentar a capacidade de resposta da rede e reduzir a probabilidade de que um aumento excepcional de demanda se transforme em uma interrupção no fornecimento.
“O planejamento energético precisa acompanhar a evolução do clima e do comportamento do consumidor. Preparar a rede para o calor extremo é uma forma de proteger a confiabilidade do fornecimento hoje, mas também de construir uma infraestrutura mais preparada para as condições que serão cada vez mais desafiadoras no futuro”, conclui João Moura.
Conclusão:
O fortalecimento do El Niño coloca clima, infraestrutura e planejamento no mesmo debate. Para o Sudeste, a combinação de temperaturas mais elevadas, chuvas irregulares e eventos extremos pode aumentar a pressão sobre redes elétricas, instalações industriais e outros ativos.
Nesse cenário, antecipar riscos, atualizar cenários de demanda e manter informações patrimoniais confiáveis deixam de ser apenas medidas preventivas e passam a fazer parte da estratégia de resiliência das empresas. Afinal, quanto maior a incerteza climática, maior a necessidade de planejamento baseado em dados para reduzir impactos e garantir a continuidade das operações.
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