O Brasil vai realizar, em 2 e 4 de dezembro, os primeiros leilões de energia dedicados exclusivamente a sistemas de armazenamento. São as famosas baterias que guardam energia solar e eólica para usar quando não há sol nem vento. E a procura surpreendeu: empresas inscreveram mais de 6 mil projetos, somando 296,9 gigawatts (GW) de potência.
Para se ter uma ideia do tamanho desse número, ele representa quase dez vezes a capacidade instalada total do Brasil hoje. Claro que nem todo esse volume vai virar contrato, a EPE ainda vai filtrar boa parte dele, mas o volume mostra que o setor estava mesmo esperando essa oportunidade.
Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), a expectativa por esses leilões já dura mais de três anos.
Por que armazenamento importa
Hoje, quando o sol se põe ou o vento para, as usinas solares e eólicas simplesmente param de gerar. O armazenamento resolve esse problema: guarda a energia produzida em horários de sobra para devolver ao sistema quando for preciso. Na prática, isso dá mais segurança ao sistema elétrico brasileiro e ajuda a evitar apagões ou a necessidade de acionar usinas térmicas, mais caras e poluentes.
O que vem agora
Antes de qualquer contrato ser fechado, os projetos passam por uma etapa de checagem técnica conduzida pela EPE, que vai avaliar quais empreendimentos realmente estão prontos para entrar no leilão. É um filtro necessário: de 6 mil inscrições, só uma parte vai efetivamente disputar e vencer.
A ABSOLAR também defende que esse tipo de leilão vire algo recorrente, com edições todo ano a partir de 2026. A lógica é simples: quanto mais previsível for esse mercado, mais fabricantes e investidores vão querer entrar.
Os entraves que ainda preocupam o setor
Apesar do otimismo, a ABSOLAR aponta alguns obstáculos que podem travar o avanço do setor:
Primeiro, uma questão tributária: os sistemas de armazenamento hoje pagam impostos que chegam a 84% do custo do equipamento, uma carga considerada alta. Reduzir esse imposto tornaria as baterias mais baratas e acessíveis, tanto para grandes usinas quanto, no futuro, para consumidores.
Segundo, uma questão mais técnica sobre quem paga a conta: uma lei aprovada em 2025 colocou nos ombros das empresas de geração de energia o custo de um encargo específico de armazenamento, o ERCAP. Ele cria uma desvantagem em relação a outras tecnologias que fazem função parecida no sistema elétrico. Há um projeto de lei em tramitação que tenta corrigir essa distorção.
Se os leilões saírem como planejado, portanto, o Brasil pode se tornar um dos mercados mais relevantes do mundo em armazenamento de energia, abrindo espaço para novos investimentos, empregos na cadeia de fabricação e instalação, e um sistema elétrico mais estável.




