Qual o segredo para o Brasil deslanchar na transição energética? Pois é, o Brasil construiu, ao longo de décadas, uma vantagem competitiva quase impossível de ser replicada por outras nações. Trata-se da integração profunda e complexa entre o agronegócio e a produção de energia.
Enquanto o mundo ainda debate como descarbonizar o transporte ou a indústria, o país já possui respostas práticas e escaláveis, colhendo os frutos de um modelo em que a mesma área de terra produz alimentos e biocombustíveis simultaneamente.
Da bioeletricidade gerada pelo bagaço da cana-de-açúcar ao despontar do biogás, biometano e do combustível sustentável de aviação (SAF), o Brasil tem as credenciais para liderar a transição energética global.
No entanto, para transformar esse potencial bruto em protagonismo econômico de longo prazo, é preciso superar gargalos históricos: a falta de infraestrutura e logística, a perda de eficiência industrial e a ausência de uma política de Estado que olhe para o futuro em vez de focar em ações de curto prazo.
Para aprofundar essas questões, o Electric News conversou com Raphaella Gomes, CEO e fundadora da New Gaia, uma plataforma de consultoria e investimentos voltada para negócios de baixo carbono. Reconhecida pela Forbes como uma das 100 Mulheres Mais Poderosas do Agronegócio e Energia, Raphaella analisa os desafios climáticos, as mudanças na geopolítica mundial e como as empresas podem transformar as fortalezas brasileiras em negócios altamente rentáveis.

O que o Brasil possui hoje no setor de bioenergia é irreplicável. O que nos coloca nessa posição única?
Raphaella Gomes: O que o Brasil construiu ao longo dos anos é um sistema complexo e integrado. Na mesma área, você planta soja e milho, produz biocombustíveis a partir do milho e, ao mesmo tempo, alimenta o gado com o DDG (resíduo dessa produção). O setor de etanol é um dos exemplos mais fascinantes dessa integração: aproveitamos todo o resíduo, como o bagaço da cana, para produzir energia elétrica que ajuda a compensar o nosso sistema elétrico na época da seca. Quando você junta nossa disponibilidade de terra, as áreas degradadas que podem ser revitalizadas sem expandir para a floresta, nossa matriz energética superlimpa e a experiência de décadas com biocombustíveis, percebe que isso tudo é irreplicável. Um outro país que decida começar do zero hoje não consegue fazer o que nós já temos.
Mas, se temos todas essas vantagens, quais são as dores que nos impedem de dar o salto definitivo?
Raphaella Gomes: “O que não temos é eficiência industrial.” Ou seja, a nossa indústria vem perdendo eficiência há duas décadas. Também não temos logística e infraestrutura adequadas, com o transporte sendo majoritariamente rodoviário. No entanto, diferentemente da nossa vocação natural e do modelo agroenergético integrado, a infraestrutura pode ser construída.
A outra dor central é que não conseguimos ter um plano de país. O que temos hoje é uma colcha de retalhos de ações pontuais para setores específicos, quase sempre pensando no curto prazo, restrito aos quatro anos de um mandato governamental. Falta um projeto de longo prazo que atravesse décadas e governos, como foi o Pró-Álcool nos anos 1970.
Olhando para o mercado, quais tecnologias ou combustíveis despontam como as maiores oportunidades de negócio no momento?
Raphaella Gomes: O biogás e o biometano estão super na crista da onda, tanto para a produção quanto para a substituição de frotas pesadas e aplicações industriais. Data centers e baterias também são palavras do momento. Mas um tema que antes era um nicho e está despontando fortemente é o CO2 biogênico.
O Brasil tem um potencial enorme de produzi-lo por meio da fermentação do etanol e do milho, e também porque o biogás é composto por 50% de CO2 biogênico e 50% de metano. Esse CO2 tem várias aplicações e está sendo muito puxado, por exemplo, pela agenda europeia de e-fuels (combustíveis sintéticos), que demanda CO2 de origem biogênica associado à eletricidade limpa.
Recentemente, uma agência da ONU admitiu que não conseguiremos limitar o aquecimento global a 1,5 ºC. Como você avalia esse cenário climático aliado às mudanças geopolíticas recentes?
Raphaella Gomes: É uma notícia triste, mas que não surpreendeu a comunidade científica. Os últimos anos bateram todos os recordes históricos de temperatura, e o que chamamos de extremos climáticos já é o novo normal. Isso já está causando rupturas e forçando a mudança de áreas agriculturáveis no mundo, algo que penaliza sempre os países mais vulneráveis primeiro.
No debate financeiro, vimos até um certo retrocesso, com grandes fundos recuando nas alianças Net Zero e investimentos em renováveis. No entanto, a geopolítica global mudou. Saímos da globalização do pós-Covid, baseada na abundância de cadeias de suprimentos, para uma regionalização. Isso colocou duas coisas no topo das preocupações mundiais: segurança alimentar e segurança energética.
Para mim, elas caminham juntas, não há alimento sem energia e vice-versa. Como o Brasil tem a capacidade de suprir o mundo em ambas as frentes, podemos transformar toda essa crise em oportunidades gigantescas de negócios e desenvolvimento para o país.
Sobre a entrevistada:
Reconhecida pela Forbes como uma das 100 Mulheres Mais Poderosas do Agronegócio e Energia, Raphaella Gomes é fundadora da New Gaia Strategies & Investments e possui mais de 20 anos de experiência nos setores de energia, combustíveis e agricultura, tendo atuado em cargos de liderança na Shell, Raízen e Votorantim.
A New Gaia, por exemplo, é uma plataforma de consultoria e investimentos que apoia empresas de mercados emergentes e investidores na construção de soluções climáticas e negócios de baixo carbono, atuando na transição energética com foco na interseção entre energia e agronegócio.
ABiogás projeta R$ 216 bi em biogás e biometano até 2035
Ultragaz abre posto próprio de biometano em Paulínia