O mercado de sistemas de armazenamento de energia em baterias, conhecidos como BESS (Battery Energy Storage Systems), começa a ganhar escala no Brasil. O movimento ocorre em meio à expansão das fontes renováveis e à necessidade de aumentar a flexibilidade do sistema elétrico.
O principal marco dessa nova fase será a realização dos primeiros Leilões de Reserva de Capacidade para sistemas de armazenamento, em dezembro de 2026. Os certames deverão contratar disponibilidade de potência de sistemas de armazenamento baseados em baterias, com contratos de 15 anos. O início está previsto para 2028.
BESS avança com leilões e produção nacional
O interesse do mercado já aparece no volume de projetos apresentados à Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Ao todo, 6.091 projetos, somando 296.807 MW de potência, foram cadastrados para participar dos leilões. O número, no entanto, não representa a potência que efetivamente estará disponível no certame, já que os empreendimentos ainda passam por análise e habilitação técnica.
A forte procura mostra o potencial que o armazenamento começa a apresentar no mercado brasileiro. As baterias podem armazenar eletricidade em períodos de maior oferta e disponibilizá-la posteriormente, ajudando o sistema a administrar momentos de maior demanda e a integrar fontes de geração cuja produção varia ao longo do dia, como solar e eólica.
Conteúdo nacional entra na discussão
Além de criar uma demanda específica para os sistemas de armazenamento, o governo também colocou a industrialização nacional no centro da discussão. Os dois leilões previstos para dezembro incluem um certame específico para sistemas de armazenamento com conteúdo nacional e outro aberto aos demais projetos elegíveis.
A medida cria espaço para o desenvolvimento de uma cadeia brasileira de BESS, envolvendo fabricação, integração, instalação, operação e manutenção dos equipamentos. Também pode favorecer projetos que atendam aos critérios de conteúdo local e tenham acesso a mecanismos de financiamento destinados à produção nacional.
Nacionalização de baterias
Um exemplo de avanço nacional é o Memorando de Entendimento (MoU) firmado entre a UCB Power e a Jinko ESS. O acordo prevê a avaliação de oportunidades para a nacionalização, no Brasil, de sistemas de armazenamento desenvolvidos pela empresa chinesa.
A iniciativa coloca lado a lado a capacidade industrial instalada no país e o portfólio internacional de sistemas BESS. Mais do que um acordo específico entre empresas, o movimento acompanha uma transformação maior do setor: a criação de condições para que o armazenamento deixe de depender exclusivamente de equipamentos importados e passe a contar com uma cadeia produtiva local.
Baterias ganham função estratégica
A expansão dos BESS está relacionada a uma mudança na operação do sistema elétrico brasileiro. Com o crescimento da geração solar e eólica, o país passa a conviver com períodos de grande oferta de energia e momentos em que a produção dessas fontes diminui.
Nesse cenário, as baterias podem funcionar como uma espécie de reserva de energia de resposta rápida. O sistema armazena eletricidade quando há disponibilidade e injeta potência na rede quando necessário.
Além dos grandes projetos conectados ao sistema elétrico, a tecnologia pode encontrar aplicações em redes de transmissão e distribuição, instalações industriais, data centers, sistemas de geração renovável e consumidores que precisam reduzir picos de demanda.
A expectativa em torno dos leilões também começa a movimentar fornecedores de tecnologia, fabricantes de baterias, integradores e empresas interessadas na infraestrutura necessária para operar esses sistemas.
Projetos cadastrados tem de ser efetivamente habilitados
O desafio agora é transformar o interesse demonstrado pelos milhares de projetos cadastrados em empreendimentos efetivamente habilitados e contratados. A EPE ressalta que o número de inscrições não corresponde aos projetos que participarão efetivamente dos certames, já que todos ainda precisam cumprir as exigências técnicas.
Por fim, se os leilões avançarem conforme o cronograma, 2026 poderá se tornar um marco para o mercado brasileiro de armazenamento de energia, criando não apenas uma nova modalidade de contratação de potência, mas também um mercado para fabricação e integração de sistemas BESS no país.