A modernização do setor elétrico brasileiro atingiu um ponto de virada em que a discussão vai além da simples expansão da oferta de energia. Com o crescimento acelerado de fontes renováveis, o grande desafio é tornar a rede de distribuição mais flexível.
Nesse novo cenário, o papel do consumidor e a forma como a energia é precificada tornam-se estratégicos. Durante o dia, a geração fotovoltaica atinge picos de produção; no entanto, no início da noite, a oferta cai rapidamente no momento em que o consumo das famílias atinge seu auge. Esse descompasso pressiona o sistema e exige o acionamento de fontes de geração mais dispendiosas.
O segredo está no horário certo de usar a energia
Para especialistas, mecanismos como a tarifa horária, que estabelece valores distintos dependendo do horário do dia, surgem como uma das principais ferramentas para equilibrar essa balança.
“Ao refletir as condições de oferta e demanda do sistema ao longo do dia, esse modelo incentiva um consumo mais eficiente da energia e amplia o aproveitamento das fontes renováveis”, avalia Vanessa Huback, Head de Inteligência de Mercado na TYR Energia.
Internacionalmente, mercados como os do Reino Unido, Austrália e Texas já demonstram que consumidores atentos aos sinais de preço conseguem reduções de até 10% em suas faturas. No Brasil, a agenda regulatória avança com consultas públicas da ANEEL para ampliar essa sinalização tarifária na baixa tensão, além da futura integração inteligente, essaarmazenamento por baterias (BESS).
CPFL fecha contrato de R$ 60 milhões com a TIM
No entanto, para que modelos de precificação dinâmica, resposta da demanda e sistemas de medição avançada funcionem na prática, o setor precisa de uma fundação tecnológica invisível ao consumidor, mas vital para as distribuidoras: conectividade e redes inteligentes.
É nesse ponto que a teoria da modernização encontra a aplicação industrial. Para sustentar a expansão dos medidores inteligentes, religadores automáticos e a digitalização da rede elétrica, a CPFL Energia e a TIM anunciaram uma parceria estratégica de R$ 60 milhões para implantar a maior rede privativa de comunicação do setor elétrico no país.
A iniciativa cobrirá uma área de 51 mil km², conectando 65 subestações e 2,5 mil equipamentos inteligentes que passarão a ser comandados em tempo real pelos Centros de Operações Integradas (COI) em São Paulo e no Rio Grande do Sul.
A rede utilizará a faixa de frequência de 450 MHz para garantir que as operações críticas do sistema elétrico permaneçam conectadas, mesmo durante intempéries ou tempestades.
Para a população estimada de 980 mil clientes impactados diretamente pelo projeto, o benefício prático traduz-se em segurança energética e agilidade: em caso de quedas de luz por acidentes ou eventos climáticos extremos, manobras de segurança e o reabastecimento do sistema poderão ser realizados remotamente em tempo recorde.
O futuro da energia no Brasil
A evolução do modelo energético brasileiro depende do casamento perfeito entre esses dois pilares: de um lado, regulação e incentivos econômicos (como a tarifa horária) para engajar o consumidor; de outro, investimentos em telecomunicações e inteligência de dados para dar sustentação técnica à rede.
Conforme a infraestrutura de medição e automação avança no campo, abre-se caminho para um ecossistema integrado, em que armazenadores de energia, redes privativas e consumidores conectados trabalharão em sintonia, garantindo a competitividade da economia brasileira e impulsionando a expansão sustentável da matriz renovável.




