A escassez de profissionais qualificados no setor elétrico ganhou novas camadas de complexidade durante a Energy Week, promovida pelo Centro de Estudos de Energia e Petróleo (CEPETRO/Unicamp). Mais do que o já conhecido “apagão de engenheiros”, especialistas da Unicamp, Petrobras, TotalEnergies e FAPESP alertaram para um problema emergente: o Brasil precisa formar um novo tipo de engenheiro, um profissional que ainda não existe nos modelos tradicionais. No centro dessa discussão está a transição energética, que demanda competências híbridas, combinando domínio digital, visão socioeconômica ampliada e capacidade de atuar em equipes altamente interdisciplinares.
Energy Week defende formação de engenheiros especializados
A abertura do painel Formação & Futuro: Profissionais para o Setor Energético, foi feita pelo diretor do CEPETRO, professor Marcelo Souza de Castro, que ressaltou que a formação de novos engenheiros e cientistas é hoje um eixo estratégico para a competitividade energética. “Estamos construindo uma articulação nacional para pensar o futuro da engenharia brasileira. O setor demanda novos perfis profissionais, e a universidade precisa estar conectada a essa transformação”, afirmou.
A pró-reitora de Pesquisa da Unicamp, professora Ana Frattini Fileti, moderadora do painel, reforçou essa percepção ao destacar um ponto central: os currículos tradicionais não acompanham a velocidade das transformações tecnológicas. Segundo ela, a experiência mostra que a universidade historicamente tem dificuldade para incorporar rapidamente tecnologias emergentes como a Inteligência Artificial aos currículos de engenharia. “Como podemos configurar os cursos de engenharia para abarcar o profissional que as empresas precisam? Quais são as competências técnicas e soft skills que devem fazer parte dessa formação?”, questionou.
Falta de profissionais qualificados
A executiva Isabel Waclawek, da TotalEnergies, trouxe números que ilustram a urgência do tema. A queda contínua nas matrículas em engenharia, somada à demanda crescente por competências digitais e tecnológicas, já compromete projetos estratégicos do setor de óleo e gás. “Temos no Brasil uma crise de profissionais qualificados. Sem engenheiros preparados para lidar com tecnologias de descarbonização, integridade de ativos e novos sistemas energéticos, não avançaremos”, afirmou.
Isabel destacou ainda um paradoxo que a indústria acompanha com preocupação: as universidades formam cerca de 50 mil engenheiros por ano, mas a previsão é de que o país precise de 350 mil novos profissionais em breve. “O desafio não é apenas quantitativo. Falta gente com o repertório necessário para a transição energética”, acrescentou.
Diferença de espaço entre formação e prática
Representando a Petrobras, Luiz Claudio Moreira Paschoal ampliou o diagnóstico ao apontar que o problema começa antes da graduação. O ingresso de jovens em carreiras STEM diminuiu, ao mesmo tempo, em que a evasão chega a 25% dos alunos. Um quarto dos estudantes não conclui o curso. “Isso revela um desafio estrutural que impacta diretamente o futuro da indústria de energia. Temos menos gente entrando e parte significativa desistindo no caminho”, observou.
Transição energética exige visão sistêmica
O professor Gilberto de Martino Jannuzzi, da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp e assessor da Diretoria Científica da FAPESP para o programa de transição energética, destacou que o país vive hoje uma transição muito mais complexa que a realizada nas décadas passadas. Antes, trocar queimadores de lenha por GLP exigia engenharia e logística. Agora, “transição energética” envolve equidade, impacto climático, desenvolvimento regional, políticas públicas e sistemas energéticos descentralizados.
“Não basta conhecer tecnologias duras. O novo profissional precisa entender para quem a solução é feita, qual é o impacto regional, como clima e território influenciam. É um engenheiro que precisa navegar entre sistemas técnicos, sociais e econômicos”, explicou.
Isabel Waclawek reforçou a importância dessa integração para que a pesquisa acadêmica se transforme em inovação industrial. “Precisamos criar trilhas de formação focadas em impacto real. Os projetos começam na universidade, mas precisam seguir para a indústria para serem escalados.”
Paschoal completou: “Quando criamos ambientes integrados entre universidade e indústria, não entregamos apenas soluções tecnológicas — formamos competências”.
Realizada de 3 a 5 de dezembro no Auditório da FCM/Unicamp, a Energy Week reuniu especialistas de empresas, academia e órgãos de fomento para debater os principais desafios e oportunidades que moldam o futuro da energia. Promovido pelo CEPETRO, o evento integrou diferentes centros de pesquisa em energia da Unicamp, como EPIC, ETRC, CINE e CEMOBE.





